terça-feira, 20 de junho de 2017

És um senhor tão bonito, Tempo Tempo Tempo Tempo




Em sua exposição sobre o mal-estar na civilização, Freud aponta três fontes que justificariam o sofrimento: a consciência sobre a finitude da vida, as pressões que o mundo social e a natureza impõem sobre os indivíduos e a sensação de incapacidade de modificação frente a essas demandas e o sofrimento proveniente das relações humanas que se estabelecem ao longo da vida. A partir dessa leitura, esse artigo pretende expor as maneiras pelas quais o sofrimento de se reconhecer parte de uma cultura, e submetido a ela, é sentido no mundo contemporâneo e avaliar não somente as demandas da vida social, mas também de que maneira, ao se refletir sobre o mal-estar, surge a possibilidade de criação, fabulação e imaginação, enriquecendo laços, nomeando o sofrimento não para ser evitado, mas compreendido e reelaborado.

O Tempo

A finitude e sua característica elementar de imposição de limites frente à potência criadora do homem é também sua força motriz de fabulação. A relação vital que se estabelece entre homem e o tempo se dá em dois sentidos, um que se aproxima do cumprimento das normas e deveres impostos pela vida em sociedade, do trabalho e estudos e no que se refere à sobrevivência, outro direcionado à certeza do fim. No primeiro caso, o mal-estar gerado ocorre quando da impossibilidade de fuga e um estreitamento a partir da repetição cotidiana da rotina e o direcionamento para o segundo caso. A certeza do destino inexorável de todos os seres aparece, portanto, como justificativa para o anseio de criação de uma nova configuração das atividades realizadas por e para o ajustamento e concordância com as normas e necessidades impostas pela organização social. Porém, o mal-estar gerado pelo desajuste com a vida cotidiana e a sensação de encurtamento do caminho direcionado ao fim por conta de sua (infinita) repetição parecem ser a causa não proclamada para o desacordo com o tempo.
O tempo também coloca a questão do sofrimento gerado nas relações humanas e o amor e os sentimentos derivados dele como uma maneira de lidar e uma causa para aflições da vida em sociedade. ‘A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida’. Nessa sentença proferida pelo poeta Vinícius de Moraes, essa aporia se faz em poesia quando anuncia o encontro como uma arte vital ao mesmo tempo em que sua dificuldade de concretização o colocaria como uma fonte de angústia e ansiedade.
A nostalgia se coloca também como uma retomada e reconstrução de uma narrativa biográfica idílica, acalentando o coração perturbado do presente e oferecendo uma demonstração de boa utilização do tempo disponível por meio da possibilidade criadora da memória. Assim, o indívido, ao se deparar atormentado no presente, dirige-se ao passado como uma compensação pelos sentimentos negativos que o encarceram numa configuração inescapável, porém vislumbrando nos tempos já distantemente vividos a concretização de sonhos e desejos desse eu saudoso e admirado.
A arte, especialmente a literatura, oferece, por outro lado, uma nova relação com o tempo e permite ao sujeito o afastamento inicial na posição de observador/leitor da narrativa de um ou mais personagens além do contato com o sonho acordado da civilização[1]. É no contato com o tempo da narrativa e das questões das personagens e suas relações com esse tempo que o sujeito-leitor tem a oportunidade de criar novas percepções desse tempo presente e com a narrativa de sua vida.
Essas novas percepções se dão de duas maneiras diversas e complementares. Primeiro e já citado, o tempo da narrativa, determinado pela organização textual produzida pelo escritor e o recorte realizado para a apresentação das situações vividas pelas personagens, na descrição daquilo que foi e do que não foi contado. A partir dessa primeira maneira, o sujeito-leitor se vê frente à outra vida para, com seu distanciamento, imprimir-lhe significados. A segunda maneira de perceber esse nova relação com o tempo do ato de ler é por meio do afastamento do sujeito-leitor de sua vida cotidiana ao abrir-lhe um portal para o escape da vida compartimentada em atividades do mundo concreto, impondo-lhe um lento e gradual desfoque do mesmo ao enfatizar no olhar a atenção ao tempo paralelo, fantástico e abstrato gerado pela aproximação com a narrativa.


[…] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante (p. 117).[1]
           
Nesse trecho escrito pelo já saudoso professor Antonio Candido em seu necessário e essencial Direito à Literatura, a literatura é posta como uma poderosa ferramenta com a qual o homem não só aprende e reflete sobre as questões angustiantes da vida, mas indica que por meio da palavra escrita em prosa e poesia é possível transgredir as normas nas quais nos sentimos enredados e imaginar, criar e fabular outras formas de vida, outras relações com os aspectos que dela nos ressentimos, outras saídas para lidar com o desajuste, o deslocamento, o não-pertencimento. 
Esse papel ambivalente da literatura, o de entreter e o de discutir questões relevantes para a compreensação e criação de formas de organização social e psíquica, encontra-se intimamente ligado à sua proposta também ambivalente de relação com o tempo, presente e o da narrativa, e produz uma força que parte do distante, do outro, e transfere-se para onde toca nos corações e mentes daqueles que submergem no universo irrestrito, infinito e liberto para analogamente recriarem e reelaborarem as noções que carregam de sofrimento e capacidade de inserção no mundo social, não apenas se submetendo servilmente às demandas que dele provêm, porém enxergando novos pontos de vista sobre as questões e enriquecendo as maneiras de acessá-las e compreendê-las, partindo não da recusa do sofrimento, mas de seu  convite para, por meio dele, reconstruir.
 




[1] CANDIDO, Antonio. Direitos Humanos e literatura. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E… Cjp / Ed. Brasiliense, 1989. 

2 comentários:

Monica chiquetto do lago disse...

Belo texto, bela análise e belo estilo. Parabéns!!!

Marilda disse...

Honrada e grata pela oportunidade de me deliciar e de aprender com seus sábios pensamentos, vertidos em palavras.
Grande você é!