Nossa, olha como o Henrique tá mal! Acho que tá numa crise brava de falta de alguma coisa. Pode até ser de amor. Essa mulher dele, rebolando ali em frente, não consegue ver que ele tá acabado e precisando de ajuda. Ela tá mais para lá do que para cá. Sei lá.
Foi numa noite que saí para relaxar. Meu pai no hospital e eu querendo tomar uma cerveja e te contar que as coisas precisavam melhorar, que vê-lo daquele jeito era triste demais e que eu nunca queria visitá-lo por medo de vê-lo como ele estava, com medo de perdê-lo, de perceber sua fragilidade. Era muita coisa e estava tudo acontecendo na minha vida. Muita coisa. Descobertas, primeiro ano de faculdade, trabalho e aquele pânico de saber que ele podia ir embora, nos deixar.
Daí queria mesmo a cerveja. Consigo lembrar apenas de um calor ameno, a gente sentada na parte de dentro do bar. Ainda podia fumar tomando cerveja, sentado. Eu acho que não sabia muito bem o que fazer quando era olhada por alguém. Como reagir. Ele passou algumas vezes parar ir ao banheiro e a cada vez um sorriso se abria quando me via. Não era bem um sorriso aberto, simpático. Era mais do tipo sedutor. Já sabia antes.
Você me disse que eu deveria olhar para ele, virando-me para trás, voltar ao meu lugar e depois quando ele passasse de novo sorrir da mesma maneira que via em seus lábios. Foi fácil. Logo ele parou na mesa e tivemos uma conversa rápida, nem lembro o que foi dito, ele derrubou o copo de cerveja na minha calça.
Algum tempo depois nos beijamos. Fomos para o outro lado do bar e só num segundo momento soube que sua mulher gargalhava embriagada do lado onde estava sentada antes. Primeira sensação da vida por um fio. Você acha exagero? Depois que a vi pela primeira vez, achei que sobrevivi por pura sorte.
Eu dei meu telefone, não compreendo muito bem até hoje, mas morri de medo que ele decidisse ligar e continuasse aquele papo pouco agradável que começou num balcão de bar. Não ligou e por dias senti calafrio cada vez que o som do celular soava, temerosa de ouvir a voz dele.
Dias depois, encontrei o Henrique sentado em frente àquele restaurante que sempre íamos, lembra? Ele olhou para mim e eu, tomando gosto pelo coisa, repeti os movimentos que o aproximaram de mim naquela noite. E ele veio. Correndo. Eu nem olhava para trás até que ele me alcançou. É que eu não olho quando gritam coisas que não o meu nome e você nem deve saber qual é. Sabia. Outra daquela conversa meio sem conversa e um abraço rápido. Agora sempre achava que ela estava olhando.
Não, foram só essas duas vezes. Depois sempre evitava que ele chegasse muito perto. É, sim, deu uns presentes, sempre falava alguma coisa e eu me sentia uma delícia sempre que passava em frente ao restaurante.
Mas daí vê-lo aqui, assim, desse jeito. Acho triste. Uma hora ele desaparece do mundo e todo esse tremilique e solidão vão embora do seu corpo.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
_noite
Não sei quem precisava mais daquele carinho. Ela estava chorando e pareceu uma ótima oportunidade de se acalmar junto a outra também. No escuro, as lágrimas brilhavam nos rostos com a ajuda da luz do poste da rua que invadia o quarto. Escuro, mas quente, aconchegante. Há uma coisa nas mãos das mães que aquecem, compreendem e tiram toda a dor de dentro da gente. Não há palavra ou qualquer outra coisa que consiga com tanta eficácia.
As mãos alisavam os cabelos e massageavam a cabeça, pescoços, orelhas. Queria entender o que tanto a machucava, incomodava. Por que tanto sofrimento? Sem saber, ambas sentiam pela mesma coisa, mas com razões distintas.
Queria atenção. Era mais ou menos por isso que sentia tanto. Do outro lado, envelhecer era dolorido por se perder a autoridade de si, transformando crianças tontas e dependentes em arrogantes que acham que podem tratar aqueles que os criaram como inválidos, chamando a atenção, brigando.
Vê-la mais calma, entrando devagar no sono e sentindo que os carinhos e o amor a estavam guiando para a paz trouxe tranquilidade a um coração que estava também machucado.
As mãos alisavam os cabelos e massageavam a cabeça, pescoços, orelhas. Queria entender o que tanto a machucava, incomodava. Por que tanto sofrimento? Sem saber, ambas sentiam pela mesma coisa, mas com razões distintas.
Queria atenção. Era mais ou menos por isso que sentia tanto. Do outro lado, envelhecer era dolorido por se perder a autoridade de si, transformando crianças tontas e dependentes em arrogantes que acham que podem tratar aqueles que os criaram como inválidos, chamando a atenção, brigando.
Vê-la mais calma, entrando devagar no sono e sentindo que os carinhos e o amor a estavam guiando para a paz trouxe tranquilidade a um coração que estava também machucado.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Hannah Arendt e os acontecimentos em Little Rock
Os acontecimentos em Little
Rock causaram impacto na recém-chegada e refugiada nos EUA. Em texto posterior
ao resenhado aqui, Hannah Arendt, por força da necessidade de explicação acerca
da polêmica que sua publicação causou nos movimentos de direitos civis norte
americanos, justifica o foco dado como uma influência de sua experiência
pessoal vivida num mundo também de ódio, antissemita, porém.
Seu ensaio, numa primeira leitura, parece não ser
favorável à integração dos alunos negros nas escolas brancas americanas. Isto
porque a autora insiste em advertir o leitor para o fato de que as crianças
sofreram uma violência ao serem obrigados a lidar com uma situação que nem
mesmo as gerações anteriores conseguiram. Esse temor, ou precaução, trouxe à
memória uma cena do filme The Help, de 2011. Dirigido por Tate Taylor, discorre
sobre a jornalista que decide ouvir as empregadas domésticas negras das
famílias brancas e escrever um livro para que elas pudessem ser ouvidas também
pelo resto do país. Sua mãe, depois de muito relutar, diz à filha: ‘Sometimes
courage skips one generation’. A reflexão que o texto suscita corre nas
palavras dessa mãe e em relação ao significado
simbólico muito mais do que pragmático que esse evento apresentou não só
naquele momento histórico, mas que ainda representa nas discussões sobre
direitos humanos e civis. Além disso, há a ideia da coragem vir do novo,
daquele ainda não completamente contaminado pelos preconceitos embutidos
socialmente.
Hannah Arendt questiona os pais negros e brancos por
permitirem que seus filhos passassem por um trauma violento como ao que foram
expostos e pelo qual ficaram marcados. Questiona seu leitor para que ele
reflita e se posicione com relação à responsabilidade que as gerações
anteriores têm com as mais jovens e as maneiras pelas quais pode protegê-las.
Como, porém, impor uma luta política dentro da escola
quando a segregação era legal na América e os negros e brancos eram mesmo
diferentes perante a lei? De que maneira forçar um posicionamento por parte dos
jovens estudantes quando o próprio Estado não só corroborava o comportamento
discriminatório como também educava seu povo para que mantivesse a conduta de
cidadão correto que não somente segue as leis mas que as defende? Por outro lado, por que não dar a chance a
um ato como esse ser ponto de partida para discussões relevantes socialmente,
assim como passaram a ser na história?
José Murilo de Carvalho defende em seu livro Cidadania no
Brasil uma evolução lógica na conquista de direitos dentro de uma sociedade e
Hannah parece seguir a mesma lógica do autor brasileiro quando não vê coerência
e mesmo legitimidade em conquistas de direitos civis sem que os políticos
estejam garantidos a priori. Apesar de significativa, sua preocupação não
previu que o evento em Little Rock pudesse aquecer o movimento pelos direitos
civis que desejaram mais igualdade além da que garantia acessibilidade às
escolas a negros e brancos, mas que os ônibus não fossem mais divididos, os
banheiros compartilhados, a porta de entrada pela frente de estabelecimentos
comerciais fosse livre, que discriminar pela cor da pele fosse crime. A
conquista dos direitos civis impulsionou o movimento a buscar e garantir
direitos políticos e seu lugar no cenário norte-americano não como um grupo
exterior, mas parte da união.
Para ler o texto de Hannah Arend 'Reflexões sobre Little Rock', acesse aqui.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
12 de novembro
Parece que há 27 anos fazia muito calor, daqueles de sol alto, ardido e sem previsão de um carinho em chuva. Era tão quente, que o clima nunca foi esquecido nas histórias dessa data como lembrança para comemorar. O dia segue quente, mas chuvoso, e é sempre o pontapé de muitas conquistas para o ano que se inicia.
Quando celebrei os 26 anos em 2011 não sabia o que faria da minha vida com as mil possibilidades tortas dançando o tempo todo na minha cabeça. Havia iniciado a licenciatura mas não pensava que seria possível já tão logo me esforçar no trabalho de educar. Minha volta às salas de aula se deu no dia de ação de graças na mesma sala que havia entrado pela primeira vez como professora há 6 anos.
Essa coragem de assumir não só meu plano como carreira, mas de começar de novo me deu uma força muito grande e uma fé em mim mesma que se traduziu num ano bastante difícil mas com dificuldades e falhas superadas. Se fez em relações que eu evitava há anos por não mais confiar nas pessoas. Elas me provaram que essa generalização era estúpida.
Hoje, com toda essa água caindo lá fora, aquela excitação de fazer aniversário se dissolveu um pouco e o sentimento este ano é de certeza, de conquista e mais que está por vir ainda.
Eu sei que o dia de ação de graças ainda demora a chegar, mas aproveito que relembrei dele para agradecer a todos que estiveram próximos este ano, que ouviram as queixas, que deram uma chance a mim e ao meu trabalho, que me apoiaram, acreditaram em mim, incentivaram que eu continuasse caminhando e compreenderam os momentos azedos de retirada.
Obrigada pelo ano e não só pelas mensagens de carinho hoje mas também por elas.
Obrigada pela água da chuva que cai e que lava o começo para abrir espaço ao novo.
Obrigada pelo amor, pela amizade e por todas as emoções que permearam mais um ano e o que está começando.
Obrigada por tanto doce, no sentido literal e figurado, em palavras.
Obrigada por participarem.
Obrigada.
E feliz muito mais!
Quando celebrei os 26 anos em 2011 não sabia o que faria da minha vida com as mil possibilidades tortas dançando o tempo todo na minha cabeça. Havia iniciado a licenciatura mas não pensava que seria possível já tão logo me esforçar no trabalho de educar. Minha volta às salas de aula se deu no dia de ação de graças na mesma sala que havia entrado pela primeira vez como professora há 6 anos.
Essa coragem de assumir não só meu plano como carreira, mas de começar de novo me deu uma força muito grande e uma fé em mim mesma que se traduziu num ano bastante difícil mas com dificuldades e falhas superadas. Se fez em relações que eu evitava há anos por não mais confiar nas pessoas. Elas me provaram que essa generalização era estúpida.
Hoje, com toda essa água caindo lá fora, aquela excitação de fazer aniversário se dissolveu um pouco e o sentimento este ano é de certeza, de conquista e mais que está por vir ainda.
Eu sei que o dia de ação de graças ainda demora a chegar, mas aproveito que relembrei dele para agradecer a todos que estiveram próximos este ano, que ouviram as queixas, que deram uma chance a mim e ao meu trabalho, que me apoiaram, acreditaram em mim, incentivaram que eu continuasse caminhando e compreenderam os momentos azedos de retirada.
Obrigada pelo ano e não só pelas mensagens de carinho hoje mas também por elas.
Obrigada pela água da chuva que cai e que lava o começo para abrir espaço ao novo.
Obrigada pelo amor, pela amizade e por todas as emoções que permearam mais um ano e o que está começando.
Obrigada por tanto doce, no sentido literal e figurado, em palavras.
Obrigada por participarem.
Obrigada.
E feliz muito mais!
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Deterministas...tsc tsc tsc
Essa tabela me entristeceu. Eu vi hoje de manhã e não pude parar de pensar nela um só momento. Acho que classificações são simplórias, deterministas e bastante preconceituosas; chega a ser meio violento inclusive. O que é sucesso para você? Você acha que todos têm as mesmas possibilidades que você, gente classe média branca? Além dessa coisa besta de loser and successful, quem tá mal das pernas é invejoso? E quem é bem-sucedido nunca pisou na cabeça de ninguém? Há uma regra só que todos os bem-sucedidos e aqueles que ainda não alcançaram o que se determinam? As pessoas têm uma história de formação diferente que ajudam a construir a personalidade, os objetivos e os meios pelos quais irão alcançá-los. Determinar simplesmente que sucesso é sinal de bom caratismo é destruir individualidades e entrar no sistema hipócrita, desigual e injusto. Então se eu tô sem emprego eu não valho nada porque vou olhar para você e seu salário e falar mal de você e sua competência? Se eu tiver passando por problemas financeiros é porque eu sou uma pessoa que responsabiliza os outros por meus erros? Eu entendo que quando estamos nos dando bem no que nos propomos a fazer sentimos um orgulho imenso do esforço que despendemos para isso. Sinto isso todos os dias pela coragem que acredito ter tido para abrir mão do que me fazia infeliz e assumir meus valores e planos. Mas isso não me dá o direito de determinar o destino e o comportamento nem dos sortudos como eu, nem daqueles que ainda estão lutando.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Solidão como ponto de vista
Era bar do Beto. Não que tivesse placa com nome em cima da porta. Letras gordas, vermelhas, convidando para uma porção de calabresa acebolada. Não tinha. Nem placa com letras gordas, nem a cebola, que já brotava em cima da geladeira. Nada muito gordo. A não ser seu João do outro lado do balcão, a trabalhar para o tal de Beto. Talvez a dona Mariluci que vinha sempre com uma saia florida e uma camisa com chinelão para dançar o samba no meio da rua.
Tinha Bruno, o cachorro. Não há bar sem cachorro. Não um verdadeiro boteco. É preciso ter um cachorro babando na porta a espera das migalhas de pão eventualmente oferecidas para ser um autêntico boteco. E para ser de verdade mesmo, só se fosse escrito com u - buteco - que tudo certinho não é coisa de um que se preze. Nada tão certinho, com todas as letras no lugar, pode dar certo se o objetivo é ser um bar, o buteco.
E Solange me encontrava todas os finais de tarde lá. Moça de Manaus, cabelo alisado e pintado de dourado. Não era claro demais não porque é coisa que eu não gosto muito. Era quase avermelhado aquele cabelo todo certo jogado para os ombros. Era a única coisa certa permitida numa mesa de latão no bar sem placa com letras gordas em cima da porta.
Manicure do bairro, trabalhava de branco e sua mania de limpeza se empossava de seu corpo onde quer que estivesse. Chegou um dia a levantar e dar banho no banheiro porque não era possível passar um dia de merda e se aliviar nela também.
Mas era forte. Não queria nada comigo não. E não entendia que sorria para ela não com interesse, mas admiração. Não queria Solange como mulher, para mim. Queria ficar ali olhando tudo e achando um encaixe nas peças como um quebra-cabeça grande, vivo, colorido, de milhões de peças. Era o bar, o Beto, ela e o Bruno. A saia da Marluci rodando e eu, aquele mané da universidade, achando graça nas horas que o povo alivia a tensão. Eu achando graça no sorriso da mulher que trabalhava desde cedo no dia, na vida, fazendo o cabelo dourado brilhar na luz do poste que a rua emprestava para a calçada do bar mais buteco que eu tinha entrado até aquele dia, meu aniversário de 23 anos.
Estava sozinho havia algumas semanas. A universidade em greve e eu precisando estudar, acabei por ficar aqui, só eu, apartamento todo para mim, a solidão toda minha, nenhuma cerveja na geladeira deixada para mim numa semana de quase nenhum livro aberto, mas centenas de horas observando todas as curvas e falhas que o pincel fez e deu quando passou pelo teto do meu quarto.
Uma caminhada no final da tarde e a calçada molhada me deteve em frente a um cara baixo, bigode amarelado e um cigarro eternamente aceso no canto da boca. Nem eram os dentes que seguravam. Não dava para saber. E foi a fumaça do cigarro do Beto que me jogou para dentro desse cantinho cheio de graça, desgraça e cachaça. E ali passei a terminar meu dia, fosse ele bom ou ruim. E sempre dividindo um copo com a Solange, que morria de rir das minhas bobagens. Morria de rir das minhas amarguras e chorava com todas as dores, minhas ou não.
Aí eu acho que alguma autoridade tinha que vir tombar isso daqui. O buteco oficial do Brasil. Nem precisa ser tanto. Pode ser só patrimônio do bairro, nada da humanidade, porque é capaz da humanidade conhecer isso aqui e acabar estragando tudo, me levando de volta para a observação de mim em cada falha nas paredes do meu quarto.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Família
Ontem um tio meu morreu. Por mais distante que estávamos por anos, ele era muito querido a mim e tenho certeza que a minha família toda também. Velórios e enterros parecem ter um poder de reflexão muito grande e ontem passei as horas que fiquei por lá pensando muito e tentando entender os motivos que afastam irmãos, tios, primos e gente que se gosta, mesmo com todos os acontecimentos que a vida cria.
Uma das lembranças mais fortes que tenho dele e da minha tia Marly é de uma festa que teve em minha casa, aquela na Cunha Gonçalves, quando eu já tinha idade para começar a guardar momentos e expectativas na memória. Não me lembro se o aniversário era do Renato ou meu, mas lembro bem que todos iriam. A família já devia ter passado por muitos bocados que a separaram, mas ainda recebíamos alguns e visitávamos outros.
Esse dia, a tia Marly e o tio Jaime trariam meus priminhos Renata e Bruno, que não sabíamos se eram muito menores que Renato, Ronaldo e eu. Lembro claramente de ter falado para o Renato que tínhamos que brincar com eles e que os dois deviam ser bebês. Não eram. Eu não tinha a menor ideia que a idade deles era bem próxima da do Rê, mas quando eles chegaram, a festa foi a maior diversão. Assim como as diversas vezes que fomos a Peruíbe com eles e que do corredor e do nosso esconderijo secreto (uma sacada em cima da casa) nós ouvíamos meu tio cantando no banheiro. Boeeeeemia, aqui me tens de regresso. Nelson Gonçalves deve tê-lo recebido nos céus cantando num show particular para um grande fã domingo à noite.
Lembro também de quando voltamos de Salvador e que passávamos férias na casa deles, uma delas mais marcante por ter sido o mês mais triste aqui em casa, quando minha tia Tutu também morreu durante o frio e que a notícia foi recebida no quarto dos meninos, no colo do meu pai e da tia Marly.
E a ida à Salvador, antes pensada, ao longo de meses, como uma aventura, mais dolorosa quando da despedida desses tios. Acho que essa e a despedida da Tutu para as terras longínquas e quentes da Bahia foram as mais doloridas daquele 1996.
Daí que um dia, não sei ao certo o porquê, e creio que nem meus pais e nem meus tios têm uma ideia clara do que houve, separamo-nos e ficamos todos esses mais de 10 anos até ontem, num dia de nova despedida, porém essa mais longa. Ouvir minha tia e minha mãe chorando uma no braço da outra e concluindo que tudo foi uma grande besteira me soou uma das melhores notícias dos últimos tempos.
Ao mesmo tempo, participar de um evento de tamanho sentimento foi muito triste. O que a morte tem que nos desperta? O que a morte oferece que nos faz refletir não só no morrer mas no que estamos a fazer com nossas vidas? Será medo? Será percebermos o quão pequenos são os acontecimentos que nos distanciam? Será perceber que amamos as pessoas e não damos o braço a torcer para retomar amizade, carinho e bem querer de mais perto?
Sempre senti falta das pessoas e do quanto era bom sentarmos todos à mesa e conversarmos sobre coisas que marcaram a família, as piadas, as festas, outras pessoas que não viria a conhecer. Sempre foi gostoso ter o Natal com a mesa mais cheia e dividir toda a felicidade e gratidão de um ano. O que será que acontece às pessoas para que elas (e nós) fiquem (fiquemos) no lugar e não mais compartilhem (compartilhemos) mais momentos para serem vividos e lembrados? O quanto estamos perdendo?
Perdemos as pessoas, mas, pode ser muito egoísta declarar isso, senti uma enorme satisfação, para não dizer felicidade, de dizer a elas que estava lá para elas, por elas. Não é preciso muito mais do que essas palavras para gente se perdoar (a nós mesmos e aos outros) por tudo o que não compreendemos que fizemos. E compreendermos que o amor está acima de qualquer uma dessas incompreensões.
Um abraço, tio Jaime. E obrigada por, de um jeito tão doloroso, nos fazer ver mais do que a dor de te perder. Eu sempre amei você. E vou sempre.
Uma das lembranças mais fortes que tenho dele e da minha tia Marly é de uma festa que teve em minha casa, aquela na Cunha Gonçalves, quando eu já tinha idade para começar a guardar momentos e expectativas na memória. Não me lembro se o aniversário era do Renato ou meu, mas lembro bem que todos iriam. A família já devia ter passado por muitos bocados que a separaram, mas ainda recebíamos alguns e visitávamos outros.
Esse dia, a tia Marly e o tio Jaime trariam meus priminhos Renata e Bruno, que não sabíamos se eram muito menores que Renato, Ronaldo e eu. Lembro claramente de ter falado para o Renato que tínhamos que brincar com eles e que os dois deviam ser bebês. Não eram. Eu não tinha a menor ideia que a idade deles era bem próxima da do Rê, mas quando eles chegaram, a festa foi a maior diversão. Assim como as diversas vezes que fomos a Peruíbe com eles e que do corredor e do nosso esconderijo secreto (uma sacada em cima da casa) nós ouvíamos meu tio cantando no banheiro. Boeeeeemia, aqui me tens de regresso. Nelson Gonçalves deve tê-lo recebido nos céus cantando num show particular para um grande fã domingo à noite.
Lembro também de quando voltamos de Salvador e que passávamos férias na casa deles, uma delas mais marcante por ter sido o mês mais triste aqui em casa, quando minha tia Tutu também morreu durante o frio e que a notícia foi recebida no quarto dos meninos, no colo do meu pai e da tia Marly.
E a ida à Salvador, antes pensada, ao longo de meses, como uma aventura, mais dolorosa quando da despedida desses tios. Acho que essa e a despedida da Tutu para as terras longínquas e quentes da Bahia foram as mais doloridas daquele 1996.
Daí que um dia, não sei ao certo o porquê, e creio que nem meus pais e nem meus tios têm uma ideia clara do que houve, separamo-nos e ficamos todos esses mais de 10 anos até ontem, num dia de nova despedida, porém essa mais longa. Ouvir minha tia e minha mãe chorando uma no braço da outra e concluindo que tudo foi uma grande besteira me soou uma das melhores notícias dos últimos tempos.
Ao mesmo tempo, participar de um evento de tamanho sentimento foi muito triste. O que a morte tem que nos desperta? O que a morte oferece que nos faz refletir não só no morrer mas no que estamos a fazer com nossas vidas? Será medo? Será percebermos o quão pequenos são os acontecimentos que nos distanciam? Será perceber que amamos as pessoas e não damos o braço a torcer para retomar amizade, carinho e bem querer de mais perto?
Sempre senti falta das pessoas e do quanto era bom sentarmos todos à mesa e conversarmos sobre coisas que marcaram a família, as piadas, as festas, outras pessoas que não viria a conhecer. Sempre foi gostoso ter o Natal com a mesa mais cheia e dividir toda a felicidade e gratidão de um ano. O que será que acontece às pessoas para que elas (e nós) fiquem (fiquemos) no lugar e não mais compartilhem (compartilhemos) mais momentos para serem vividos e lembrados? O quanto estamos perdendo?
Perdemos as pessoas, mas, pode ser muito egoísta declarar isso, senti uma enorme satisfação, para não dizer felicidade, de dizer a elas que estava lá para elas, por elas. Não é preciso muito mais do que essas palavras para gente se perdoar (a nós mesmos e aos outros) por tudo o que não compreendemos que fizemos. E compreendermos que o amor está acima de qualquer uma dessas incompreensões.
Um abraço, tio Jaime. E obrigada por, de um jeito tão doloroso, nos fazer ver mais do que a dor de te perder. Eu sempre amei você. E vou sempre.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Aonde a música pode te levar?
Os pratos vibram e logo o baixo começa a ser dedilhado. Com os primeiros versos, eu fecho meus olhos, abro meus braços e a letra sai da minha boca, o vento mais frio dança ao redor do meu corpo e eu não estou mais onde quer que eu estivesse.
The tine purple fishes run laughing through your fingers and you want to take them with you.
Tudo aconteceu como se esse som não me fosse inédito, como se dançar essa música não fosse novidade. A praia (ou seria um campo aberto?), a brisa, meu corpo sabendo exatamente como se mover e as lembranças de situações que nunca vivi (será?) aparecer como se fossem ideias do que fazer.
Nada é novo e tudo é tão felizmente conhecido (pela primeira vez). Já estive aqui? continuo de olhos fechados e a nova música acelera meus dedos para que eu não perca nenhum momento desse espetáculo.
Os carros correm e buzinam e eu os levo todos comigo. como se não houvesse outra possibilidade para todos nós. Toda essa pressa só pode ser para ver esse espetáculo girando em algum paraíso. And the colors here are not of the sea, but of the sky in a place where it loves the rock ocean. E nos preparamos para a apocalíptica troca de solos enquanto nossos passos entrelaçam pernas e peneus. Até as vigas juntam-se à brilhante novidade em acordes, balanço, vento.
Eu quero me jogar! Mas onde está escondido esse lugar? E se eu abrir meus olhos e tirar os fones do ouvido? Não! Isso seria muito dolorido, seria torturante. Além do mais, aqui está muito melhor. 2012,
seeya! Come back to me 70's!
The tine purple fishes run laughing through your fingers and you want to take them with you.
Tudo aconteceu como se esse som não me fosse inédito, como se dançar essa música não fosse novidade. A praia (ou seria um campo aberto?), a brisa, meu corpo sabendo exatamente como se mover e as lembranças de situações que nunca vivi (será?) aparecer como se fossem ideias do que fazer.
Nada é novo e tudo é tão felizmente conhecido (pela primeira vez). Já estive aqui? continuo de olhos fechados e a nova música acelera meus dedos para que eu não perca nenhum momento desse espetáculo.
Os carros correm e buzinam e eu os levo todos comigo. como se não houvesse outra possibilidade para todos nós. Toda essa pressa só pode ser para ver esse espetáculo girando em algum paraíso. And the colors here are not of the sea, but of the sky in a place where it loves the rock ocean. E nos preparamos para a apocalíptica troca de solos enquanto nossos passos entrelaçam pernas e peneus. Até as vigas juntam-se à brilhante novidade em acordes, balanço, vento.
Eu quero me jogar! Mas onde está escondido esse lugar? E se eu abrir meus olhos e tirar os fones do ouvido? Não! Isso seria muito dolorido, seria torturante. Além do mais, aqui está muito melhor. 2012,
seeya! Come back to me 70's!
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