The attempt at introspective analysis […] is in fact
like seizing a spinning top to catch its motion, or
trying to turn up the gas quickly enough to see how
the darkness looks.
William James
Eu estava farto de luz. Todos os países que
percorrera, todos os cenários que contemplava,
inundava-os a luz do dia, e, à noite, a das estrelas.
Ah!, que impressão enervante me causava essa luz
eterna, essa luz enfadonha, sempre a mesma, sempre
tirando o mistério às coisas... Assim parti para uma
terra ignorada, perdida em um mundo extra-real
onde as cidades e as florestas existem
perpetuamente mergulhadas na mais densa treva ...
Não há palavras que traduzam a beleza que
experimentei nessa região singular. Porque eu via as
trevas. A sua inteligência não concebe isto, decerto,
nem a de ninguém ...
Mario de Sá-Carneiro
By day there was nothing, but by night there were
lamps, and George Stransom was in a mood that
made lamps good in themselves. It wasn’t that they
could show him anything, it was only that they could
burn clear.
Henry James
And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warningIn the words that it was forming
And the sign said, the words of the prophets are written on the subway walls
And tenement hallsAnd whispered in the sounds of silence
Paul Simon
You wanna it darker
We killed the flame.
Leonard Cohen
quinta-feira, 8 de março de 2018
domingo, 25 de fevereiro de 2018
Intertexto, de Bertolt Brecht
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Rio de Janeiro, Brasil. Fevereiro/2018
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Rio de Janeiro, Brasil. Fevereiro/2018
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
Conheço o meu lugar - Belchior
O que é que pode fazer o homem comum
Neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
A vida comovida
Inteiramente livre e triunfante?
O que é que eu posso fazer
Com a minha juventude
Quando a máxima saúde hoje
É pretender usar a voz?
O que é que eu posso fazer
Um simples cantador das coisas do porão?
Deus fez os cães da rua pra morder vocês
Que sob a luz da lua
Os tratam como gente - é claro! - aos pontapés
Era uma vez um homem e o seu tempo
Botas de sangue nas roupas de lorca
Olho de frente a cara do presente e sei
Que vou ouvir a mesma história porca
Não há motivo para festa: Ora esta!
Eu não sei rir à toa!
Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)
Pois sou uma pessoa
Esta é minha canoa: Eu nela embarco
Eu sou pessoa!
A palavra pessoa hoje não soa bem
Pouco me importa!
Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!
Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
janeiro
Com dificuldade de comer
me livro dos excessos
retomo
e aguardo.
O café acolhe e abraça,
o cigarro me acompanha, sempre.
Trago
e refaço.
Deito e ilumino
o que adormecia em mim.
E agora
volto.
Arrepiada com o toque,
a lembrança renasce.
Olho
e recon(m)heço.
me livro dos excessos
retomo
e aguardo.
O café acolhe e abraça,
o cigarro me acompanha, sempre.
Trago
e refaço.
Deito e ilumino
o que adormecia em mim.
E agora
volto.
Arrepiada com o toque,
a lembrança renasce.
Olho
e recon(m)heço.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Livros - 2017
Ano passado tive a grande ideia de anotar os livros lidos ao longo do ano e nunca imaginei o quanto isso me ajudaria a lembrar de passagens, de sensações e de ideias vividas ao longo da leitura só de checar a lista. Esse ano repeti a dose e resolvi publicar para que não se perdesse nos meus inúmeros cardeninhos de anotação e agendas e fosse encontrada somente anos mais tarde com uma exclamação de total surpresa.
Anotei somente literatura e deixei teoria para os meus cadernos de fichamento, acho que é o suficiente.
Billie Holiday, de Sylvia Fol
Infância, Graciliano Ramos
Rita Lee, autobiografia
A amiga genial, Elena Ferrante
Os duídas, Filippo L. Olivieri
História do novo sobrenome, Elena Ferrante
Meio Sol Amarelo, Chimamanda Ngozi Adichie
A Montanha Mágica, Thomas Mann
The Last kingdom, Bernard Conrwell
The Pale Horsemen, Bernard Cornwell
The Lords of the North, Bernard Cornwell
Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie
Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie
A história da filha perdida, Elena Ferrante
A história da menina perdida, Elena Ferrante
Um copo de cólera, Raduan Nassar
Sword Song, Bernard Cornwell
Contos, Machado de Assis
O pêndulo de Foucault, Umberto Eco
Correr, Dráuzio Varela
A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksiévitch
Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro
Christmas Carol, Charles Dickens
A Descoberta da Escrita, Karl Ove Knausgard
A Alma encantadora das ruas, João do Rio (lendo)
Anotei somente literatura e deixei teoria para os meus cadernos de fichamento, acho que é o suficiente.
Billie Holiday, de Sylvia Fol
Infância, Graciliano Ramos
Rita Lee, autobiografia
A amiga genial, Elena Ferrante
Os duídas, Filippo L. Olivieri
História do novo sobrenome, Elena Ferrante
Meio Sol Amarelo, Chimamanda Ngozi Adichie
A Montanha Mágica, Thomas Mann
The Last kingdom, Bernard Conrwell
The Pale Horsemen, Bernard Cornwell
The Lords of the North, Bernard Cornwell
Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie
Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie
A história da filha perdida, Elena Ferrante
A história da menina perdida, Elena Ferrante
Um copo de cólera, Raduan Nassar
Sword Song, Bernard Cornwell
Contos, Machado de Assis
O pêndulo de Foucault, Umberto Eco
Correr, Dráuzio Varela
A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksiévitch
Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro
Christmas Carol, Charles Dickens
A Descoberta da Escrita, Karl Ove Knausgard
A Alma encantadora das ruas, João do Rio (lendo)
segunda-feira, 3 de abril de 2017
A Warrior's Journey
Part I
My name is Mharyna Meeglyasci. My mother’s name is Mercya and we are descendents from a long ancestry of brave and strong women with names starting with the letter M. My family owns a land in a far region of the country called Buteanteas, meaning The world inhabited by snakes, and life has been undisturbed characterized by a alienated dogmatic dream, as my male companion would say.
Yet, the past few months, the tedious day to day was suspended and mistaken decisions made have had a huge impact in every laborer in these south lands. Not pious ealdormen in the kingdom revengefully took away some of long established rights so many warriors had accomplished in battle. Our arm rings were all lost, hopelessly. Treachery in the nightfall. The swamps were all taken by darkness and desilusion.
The morning light reached my tired eyes and duty woke me up. I saw myself abandoned by my lover Pauelis Walnut who had long left for hunting down the enemies of his Lord Lineasis Roger to whom he was attached by an oath but tempted to abandon him to his own luck. I cowardly walked out of the bed and left the furs trapped all over my baby beasts’ bodies. I dragged my legs to the latrine in front of the bedroom and unleashed in there the remains of the night before. Ale, mead, loafs of bread and slices of despair, astonishment and desperation.
The car was set in front of the old market and I accommodated my laziness in it while people struggled to pass through its door in search of a seat to take blessed minutes of rest. The day was warm enough to make me feel unwelcomed to the world and awake the disturbance of the inflicted sickness that took my inwards. Slowly, the car moved towards the monastery where my pupils waited for my assistance and my desires were left behind safeguarded by my dearest animals, at least, I wished so.
The distance was decreased by the marvelous landscapes visible through the windows and the fatigue gently set my body almost free. Crossing the river, the magnanimous building in which my day would be consumed set itself and the glimpse of some priests carrying their books had marked the horizon. I couldn’t help but wonder if those priests were aware of how screwed we all suddenly became and if by ignoring this fact their faith would present a believable way out.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
O Caçador de Libélulas
Estou há 40 anos aqui e a cidade virou minha casa. Mas há sempre aquela sensação de não pertencer. O negócio é que não pertenço nem mais a Santiago nem a esta cidade em que vivo já mais do que vivi na outra. É como estar para sempre à margem, sempre sem porto, à deriva. Engraçado que a procura pela sensação de casa, de reconhecimento nunca se perde, nunca se desfaz. Há 40 anos, portanto, procuro meu lugar, e agora, aos 70, imagino que esse lugar seja dentro de cada um de meus desenhos.
Esse em suas mãos se chama Recuerdos de Mi Infancia e apesar de não ser essa a memória representada plasticamente na folha, ela me remete às tardes de verão quando meus amigos e eu passávamos sentados em frente a uma farmácia. Nós comprávamos melancias e fazíamos a maior sujeira em seus degraus e deixávamos seu Nestor uma fera por atrapalharmos sua sagrada sesta.
Um dia, o velho farmacêutico nos fez uma proposta. Precisaria de uma centena de cabeças de libélulas para a fabricação de um remédio. O engenhoso Sebastián usou um dos nossos brinquedos, aquele que gira e faz barulho...isso, reco-reco, para atrair as libélulas e muito rapidamente juntamos a encomenda para voltar à farmácia. Havia um prêmio, saquinhos de sal de frutas para misturar no refrigerante e fingir ser espumante.
Muito bem, agora seu Nestor precisava das cabeças por tamanho. A gente se sentia importante ajudando na fabricação de tão necessário medicamento. Três baldes, um com cabeças pequenas, um com médias e um cheio de cabeças grandes. Por esse pedido, além do sal de frutas nós também ganharíamos um centavo por matéria-prima.
Lá fomos nós, um grupo de meia dúzia de meninos sedentos pelo prestígio de participar de um projeto para salvar vidas e comemorar na praça com bebidas borbulhantes. Não demoramos muito e lá estávamos em frente à pequena farmácia com os baldes cheios de nossas vítimas sacrificadas por um bem maior.
Era tempo, imagino eu. Havia um engajamento para criar algo e não apenas açoitar a criançada debaixo de reclamações. Não consigo imaginar essa paciência para com os jovens hoje porque me parece haver uma pressa de se livrar do que chamam de problema, uma repulsa pela convivência com novas gerações. Claro que não sou nem ingênuo nem saudosista a ponto de dizer que havia essa celebração geracional. Havia conflito. E também imagino que isso continue acontecendo por aí. Sempre há Nestores pelo mundo. Se há um reconhecimento neste corpo velho é esse, de me aconchegar na ideia de ser como ele, alguém criativo para lidar com as pessoas, aberto para descobrir novos caminhos e feliz em oferecer a sensação de importância àqueles que cruzarem o meu caminho, que pararem em frente ao meu estabelecimento, minha banca de desenhos.
Meu nome é Wasard e foi um prazer conhecê-los. Esse desenho é um presente para vocês em agradecimento a essa conversa que me fez viajar longe, me fez voltar ao lugar onde uma vez chamei de lar.
Montevidéu, Julho/2016
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
A Casa
A Casa. Assim com letra maiúscula e artigo definido. Tinha um portão que dava para rua e a uma garagem que usávamos de pista de escorregar. Minha mãe e meu pai, porque eles sempre foram assim, duas pessoas, com identidades até na hora quando eu me dirijo a eles - dizer 'meus pais' nunca fez muito sentido para mim - lavavam-na e deixavam tudo bem ensaboado para gente dar impulso numa parede e chegar de barriga até a outra.
Subindo a escada no canto esquerdo chegava-se a um pátio onde sempre montávamos a árvore de natal e de onde tinha-se acesso à sala de estar. Era grande e havia dois ambientes, os sofás e a TV de um lado e o móvel de madeira com portas de treliça que comportava o som super enorme e todos os discos, CD's e fitas cassete do outro. Um terraço cheio de plantas e uma piscina daquelas cheias de ondas azuis desenhada esparramada no centro se alongava em frente a ela. Logo depois, a sala de jantar, onde todas as festas se acomodavam com os balões coloridos, os bolos e os milhões de docinhos que eram preparados dias antes, madrugada adentro, com música e mutirão para passar os brigadeiros no granulado. O quintal que seguia a cozinha foi casa do Juba, cachorro lindo que infelizmente chegou para crianças assustadas com seu tamanho de lobo, mas sua doçura de filhote.
Lá em cima, os três quartos, na frente o dos meninos, no meio o meu e no fundo a cama de casal onde cabia todo mundo e mais bichos de pelúcia e bonecas. Os dois banheiros tinham diferentes funções. O do quarto do fundo servia para ser escalado. O corredor de entrada dele apresentava a distância ideal para subirmos pelas paredes num ensaio infantil de parkour. O outro guardava um armário de brinquedos usados para fazermos nossas experiências no chuveiro.
Aquele quarto do meio foi cenário e estúdio de um programa de rádio do qual fui radialista por muitas fitas cassetes cheias de notícias, contação de história, músicas e propaganda do meu eterno patrocinador, as pilhas Rayovac - as amarelinhas.
Mas A Casa era muito mais do que muito espaço bonito e bem planejado. Era um lar. Tinha clima de lar, de família, de conforto, de amor. Era lá que recebíamos as pessoas, onde minha mãe se aventurou pelo mundo dos negócios com seu macarrão, onde meu pai fez todos os experimentos de manutenção, onde eu e meus irmãos invetávamos outras dimensões, outras realidades, personagens para nossas vidinhas. Foi lá que nossos primeiros amigos foram passar o dia, que eu perdi meu dente na piscina e passei algum tempo com uma prótese que me rendeu o apelido de dente de plástico no ônibus escolar.
A Casa é e sempre será minha referência de casa, de bem-estar. E ela existe assim, na imensidão caleidoscópica da minha cabeça. Reconhecê-la como tal é localizá-la, resignificá-la e mantê-la onde ela deve estar, como uma memória carinhosa de um tempo da minha formação, da construção do meu eu. Obrigada, Casa, pela acolhida!
Subindo a escada no canto esquerdo chegava-se a um pátio onde sempre montávamos a árvore de natal e de onde tinha-se acesso à sala de estar. Era grande e havia dois ambientes, os sofás e a TV de um lado e o móvel de madeira com portas de treliça que comportava o som super enorme e todos os discos, CD's e fitas cassete do outro. Um terraço cheio de plantas e uma piscina daquelas cheias de ondas azuis desenhada esparramada no centro se alongava em frente a ela. Logo depois, a sala de jantar, onde todas as festas se acomodavam com os balões coloridos, os bolos e os milhões de docinhos que eram preparados dias antes, madrugada adentro, com música e mutirão para passar os brigadeiros no granulado. O quintal que seguia a cozinha foi casa do Juba, cachorro lindo que infelizmente chegou para crianças assustadas com seu tamanho de lobo, mas sua doçura de filhote.
Lá em cima, os três quartos, na frente o dos meninos, no meio o meu e no fundo a cama de casal onde cabia todo mundo e mais bichos de pelúcia e bonecas. Os dois banheiros tinham diferentes funções. O do quarto do fundo servia para ser escalado. O corredor de entrada dele apresentava a distância ideal para subirmos pelas paredes num ensaio infantil de parkour. O outro guardava um armário de brinquedos usados para fazermos nossas experiências no chuveiro.
Aquele quarto do meio foi cenário e estúdio de um programa de rádio do qual fui radialista por muitas fitas cassetes cheias de notícias, contação de história, músicas e propaganda do meu eterno patrocinador, as pilhas Rayovac - as amarelinhas.
Mas A Casa era muito mais do que muito espaço bonito e bem planejado. Era um lar. Tinha clima de lar, de família, de conforto, de amor. Era lá que recebíamos as pessoas, onde minha mãe se aventurou pelo mundo dos negócios com seu macarrão, onde meu pai fez todos os experimentos de manutenção, onde eu e meus irmãos invetávamos outras dimensões, outras realidades, personagens para nossas vidinhas. Foi lá que nossos primeiros amigos foram passar o dia, que eu perdi meu dente na piscina e passei algum tempo com uma prótese que me rendeu o apelido de dente de plástico no ônibus escolar.
A Casa é e sempre será minha referência de casa, de bem-estar. E ela existe assim, na imensidão caleidoscópica da minha cabeça. Reconhecê-la como tal é localizá-la, resignificá-la e mantê-la onde ela deve estar, como uma memória carinhosa de um tempo da minha formação, da construção do meu eu. Obrigada, Casa, pela acolhida!
domingo, 8 de maio de 2016
Burnout
A tontura por incapacidade de concentração. A cabeça gira em mil pensamentos e nada parece ser um caminho, uma solução, mas uma pilha de preocupações e todas as frustrações na ordem do dia. Nada satisfaz. Nada parece ser concreto, certo, conquistado.
A noite toda olhando no relógio e atrasada, preocupada, cansada, acorda mais uma vez e checa quanto falta para a fatídica hora de levantar, de correr. Vira mais uma vez e dói. Os pés, as costas, as pernas e a cabeça. Ah, a cabeça dói o tempo todo. Já nem toma mais remédio, já nem acha que vai resolver. Vira e o encontra, abraça seu corpo, segura sua mão e dorme de novo. São 5 horas, enfim a hora pela qual ansiou a noite toda.
Os pés encontram o chão mas não completamente e já reclamam. Doem. O banheiro frio, a casa escura e o banho que poderia relaxar é só uma preparação para o dia todo, maluco, cansado, estressante. Esquece de pegar a toalha e sai molhada andando pela casa a procura de calor, de aconchego. Nada parece vestir bem e faz a pior escolha de roupa, uma que a fará se sentir no corpo errado ao longo de toda a jornada.
Não tem café e nem dá tempo de fazer. Não tem pão. Tem um bolo de laranja, doce doce. Enjoa. Acha o leite e acende o cigarro. Também lembra dos seus alunos, da caixa de chocolate toda assinada que ganhou e sorri. Que queridos, que preocupação comigo, que carinho. As lágrimas já estão cedo nos seus olhos, mas não há mais tempo. Seca o cabelo, passa perfume, pega a chave, despede-se dos gatinhos e vai.
As leituras de ônibus tiram a sua cabeça desse mundo, a divertem e ela segue viagem, segue com o trânsito, segue com a vida. Aos poucos, o mundo todo parece ir acordando. Distrai-se com as janelas das casas que se acendem e imagina como se preparam para mais um dia, como vivem a vida, como organizam seus mundos.
Uma mulher puxa conversa. Esqueceu o café da manhã em casa e teme que seu cachorro o coma. Seus filhos o acostumaram a comer um monte de porcaria e ela tensa vasculha a bolsa mas nada. Só as maçãs e a fome. Até mais. Bom dia.
A dureza estampada no rosto de uma gente toda, a dor pesando por tantos corpos sem posse e eu me sentindo um pouco menos fora, um pouco mais próxima da beira, um tantinho mais amparada mesmo que por compartilhar as mesmas ânsias, impotências e determinações.
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