Já parou para pensar como você começou a se relacionar com a a palavra escrita? Digo isso pensando lá atrás, quando você aprendeu a ler e escrever mesmo. Você se lembra como foi, se queria (estava ansioso) para aprender? Irmãos influenciaram? Pais e mães? Algum tio ou tia que fosse apaixonado por páginas repletas de histórias?
Comecei a pensar nisso novamente hoje, durante e após a aula de Didática. Era uma tarefa repensar, fazer essa regressão e tentar entender nossa história de formação. Minha memória anda meio de peixe e eu ando pulando muitas etapas com a cabeça cheia e esqueço de absolutamente tudo. Assim, depois de quase um mês da leitura do capítulo Memórias de livro, do romance Um brasileiro em Berlim, de João Ubaldo Ribeiro, volto eu a refletir sobre a minha iniciação no mundo escrito.
Nesse capítulo, é isso o que o autor (re)faz. Analisa seu passado em busca de todas as memórias de livro que construíram sua relação com eles como ela hoje. E estou aqui a pensar e lembrei bem de uma cena: Ronaldo com um bando de amiguinhos da escola na sala de jantar de casa, eu, intrometida, sentada perto. Todos elaborando mil e uma atividades e eu louca para participar daquilo tudo. Consigo lembrar de me trancar no meu quarto, coisa que fiz por toda a vida (que estou a fazer agora mesmo) e imitar com um caderno e um monte de canetas aquele ritual encantador de um monte de gente em volta de um papel a realizar, a produzir, criar, entender. Inclusive, 'usava' o Renato para fazer o papel do meu aluno enquanto eu rabiscava na lousinha imitando minhas professoras.
Estudei em uma escola chamada Pitanga Porã. Faz muito muito tempo e, apesar de eu ser dona de uma memória absolutamente absurda, estou na fase peixe, lembrem-se, e por mais força que faça, não lembro de muito mais do que festas juninas, os parques de areia e minha angústia quando me separaram do meu irmãozinho pequeno. 'Como ele vai ficar sozinho?', pensava eu, ingenuamente.
Ao que tudo indica, foi nessa escola onde aprendi a ler e escrever. Mas esse momento inicial parece ter ficado não só esquecido, mas como que diluído. Parece que esse momento nunca existiu, como se eu soubesse ler e escrever desde sempre. Assim, tudo o que aconteceu depois vem ordenado, cheio de detalhes, As Cores de Laurinha e os esforços de vender desenhos para comprar a bolsa de presente para a mãe, os contos de fadas todos desgastados de tanto que as páginas foram viradas, as invencionices que ficaram registradas em muitas páginas brancas por pouquíssimo tempo.
Lembro de passar finais de semana com minha tia Tutu e dela ler bastante nesse tempo em que ficávamos juntas. Um dia eu trouxe a minha 'Marca de uma lágrima' e, toda orgulhosa, deitei no sofá ao lado dela para eu também ler por toda a noite. Meu pai é newspaper addicted e sempre o vejo de óculos lendo as folhas da vida, revista e sendo a maior fonte de informação histórica que tive. A relação dele com livros não foi muito boa, até que eles romperam após Cem anos de Solidão. Nunca entendi o desentendimento. Minha mãe é estudiosa, está sempre com um livrinho de capas divinas e um lápis para anotações. Há pouco tempo também passou a escrever e tem um blog querido. Jamais deixa de aprender e está sempre ensinando muita coisa da vida.
Também tem a Andrea e o Paulo e com eles eu passei férias visitando livrarias e sebos, falando de histórias e querendo ler o que eles estavam contando. Ela escritora e ele tradutor, os dois cheios de contos para passar para frente, em meio a piadas e chocolate ou pipoca.
Depois veio a faculdade e eu, já decidida a ir pelo caminho das letras, isso porque queria ser escritora, tive crises fortes de identidade, de escolha, de rebeldia sem causa, mas nunca consegui ficar longe dos livros, nunca nos desentendemos. Eles, inclusive, me ajudam a me compreender melhor, a pensar, a criar, a copiar ideias boas, elaborar novas com o que já está dado. Para mim, é como se, assim como saber ler e escrever, eles estivessem nascido junto comigo.
Ótima companhia, professores e amigos que marcam momentos da vida, reflexões e vício.
Aliás, um livro gostoso e um café num dia friozinho, deitadinha em um lugar e a cabeça em outro qualquer. Um dos grandes momentos do dia.
Mas a relação com eles, com a leitura é construída não só diretamente, mas por meio dos lugares que você conhece e frequenta, pelas pessoas com quem você convive (e isso eu acho que explicitei acima de alguma maneira), os filmes que vê e o tipo de música que você escuta. Abrir espaço para conhecer de tudo é engrandecedor e acredito que um conhecimento vá influenciando o outro, mesmo os de 'áreas' distintas. O contato do popular ao erudito e a criação de pontos de vista a partir não de ouvir dizer, mas de conhecimento de causa. Após péssimas notícias acerca da relação do brasileiro com a leitura (que você pode ler
aqui), é hora de todos repensarmos essa nossa história e tentarmos entender o que há de errado para fazermos algo em favor de uma melhora nesse quadro triste e alarmante.