sábado, 22 de dezembro de 2018

às muitas vistas

Sonhei que tinha mandado uma música do Chico César para você.
E você chorou quando ouviu.
Eu via tudo,
como onipotente e onipresente em sonho.
Uma deusa do meu próprio destino.
Uma menina nas mãos decisivas dos caminhos trilhados por mim.

Era simples
e corajoso.
Era um resumo de mim
e de quando caminhou ligeiro (e fugidio) ao meu lado.
Era sonho,
mas era memória também.

E acordei para dedilhar no piano as notas adormecidas no peito.
Era eu, mais do que você. Mas você também estava lá.


domingo, 16 de dezembro de 2018

Expurgo

       Foram três palavras lidas e uma descarga elétrica despejada no topo da sua cabeça. Não sabia nem como e nem o porquê de ter parado ali, novamente com o risco, agora comprovado, de sofrer com a imagem de sua mentira. As três palavras não machucavam tanto quanto a dor da perda da propriedade delas. Não eram mais suas. Não eram mais.

      A luz em volta de si foi se apagando enquanto passava a mão direita no estômago dolorido, ardente. Suas unhas cavucavam e a ardência parecia aumentar. Sangue, carne e o dedos a perfurar a pele. Coçava de vazio, coçava de ausência. Recostou no travesseiro sua cabeça pesada e ainda eletrizada pelas três palavras desprovidas de seu corpo. Ou seu corpo desprovido delas.

     Sua mão já apalpava algo quente, úmido e palpitante no centro de sua barriga. Segurava-o fortemente, acariciava-o e retirava-o de dentro de si. A incisão que fizera foi o caminho para a salvação.

      Foi até o banheiro e com uma toalha limpou o sangue, lavou a barriga. Pegou gaze na gaveta, passou algodão com iodo e fechou com esparadrapo. O curativo superficial não era uma preocupação. Seu ventre se recompunha rápido. As células de carne e de pele se multiplicavam a cada passada de algodão. Seu corpo se acalmava e as três palavras não coçavam mais no centro de seu ventre. 

        Retomava posse, oferecendo-se para si.

       Trocou os lençóis da cama, arrastou os móveis e o ar chegava agora em seus cantos escondidos. Fez um café e sentou-se de frente para a vista do céu. Aquela dor não era mais sua. A dor, desapossada, destituída, desabrigada, fora jogada pela janela e sua redenção vinha de dentro daquela mulher.

     Voltava a ser senhora de si. Voltava a ser um corpo completo, uma mulher com outras tantas acomodadas em seu peito. Todas pela reconstrução do caminho labiríntico que levava até o seu coração.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Promessas

De amor:
um violão,
a viagem,
algum tostão.

De presença:
permanência,
as estrelas,
o pão.

De verdade,
um museu,
os planetas,
sua mão.

De perto
um olhar
não sustenta
a paixão.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Catarse com Nick Cave

Shoot me down me arrancou todas as lágrimas que eu não imaginei que estavam no peito. E nossa, como havia lágrima ainda!

Into my arms começou com olhos molhados e meu corpo todo se acalmando. 'But I believe in love' e uau! como eu acredito no amor. E como eu acredito em mim e nas possibilidades da vida. E pensei que eu tenho medo, mas sou corajosa demais por tudo o que tem acontecido e por não me esconder, não desviar mais o olhar. E bateu uma vontade louca da vida, sabe? Eu sorri e pensei que esse lugar que foi ocupado recentemente, abruptamente e intensamente no meu coração precisa ser curado, mas tudo bem. Tudo bem eu ter ficado mal, tudo bem eu ter sofrido, mas agora a vida está toda aí para mim e tem acontecido muita coisa boa. 

Eu chorei mais por mim do que por ele. Eu chorei por ter acreditado no que a gente tinha e isso é bom, não é ruim. Eu chorei essas noites todas porque estou aprendendo a viver comigo mesma. Tirei da cabeça a desconfiança do que foi sentido do outro lado dessa relação, mas confirmei a certeza de que para andar ao meu lado além de disposição tem que ter coragem. De se decepcionar, de chorar e de se doar.

E sentir saudade é ter sido honesta e inteira. E eu sou honesta com meus afetos, inteira nas minhas escolhas e certa dos caminhos todos até aqui. 


I believe in love and I know that you do too
And I believe in some kind of path that we can walk down, me and you
So keep your candle burning and make (his) journey bright and pure


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

há poesia em são paulo

Loucura em goles de vinho
inebriando a tarde de segunda.

A corrida semi-fria
(e quase chuvosa)
para alcançar notas
e espremer lágrimas de deslumbramento.

E a sua mão segurando a minha, leve e querida.

Outro copo 
outro drink.
Bolas iluminadas
e uma vontade de dividir.

Levo uma flor
recebendo o abraço acolhedor do seu peito.

À meia-luz, vejo nos seus olhos os meus.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Milton Nascimento e eu

Pena, que pena, que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale aquela / amar / à pena /
valerá

Eles partiram por outros assuntos, muitos
Mas no meu canto estarão sempre juntos, muito

Qualquer maneira que eu cante este canto
Qualquer maneira me vale cantar
Eles se amam de qualquer maneira, à vera
Eles se amam é prá vida inteira, à vera

Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá

domingo, 29 de julho de 2018

“The shampoo”, by Elizabeth Bishop

The still explosions on the rocks,
the lichens, grow
by spreading, gray, concentric shocks.
They have arranged
to meet the rings around the moon, although
within our memories they have not changed.
And since the heavens will attend
as long on us,
you’ve been, dear friend,
precipitate and pragmatical;
and look what happens. For Time is
nothing if not amenable.
The shooting stars in your black hair
in bright formation
are flocking where,
so straight, so soon?
– Come, let me wash it in this big tin basin,
battered and shiny like the moon.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Saramago

As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras nos absorvem, não nos deixam: são como garras, vêm nos livros, nos jornais, nas mensagens publicitárias, nos rótulos dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, intimidam, impõem, segregam , eliminam. São melífluas ou ácidas. E tudo isso aturde as estrelas e perturbam as comunicações, como as tempestades solares.
Porque as palavras têm deixado de comunicar. Cada palavra é dita para que não se ouça outra. A palavra, até quando não afirma, se afirma: a palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra não mostra. A palavra disfarça.

Daí que resulte urgente podar as palavras para que a plantação se converta em colheita. Daí que as palavras sejam instrumento de morte ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que vale o silêncio do ato.

Há, também, o silêncio. O silêncio é, por definição, o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calado sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. “Mas só o trigo dá pão”.

domingo, 10 de junho de 2018

the mad ones

"the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes "Awww!" J.K - On the Roa

terça-feira, 22 de maio de 2018

o grito

A cortina estava aberta e a fresta da janela trazia o vento frio às suas costas. Lembrou-se de respirar. Como podia se esquecer tão frequentemente de respirar? Virou de barriga para cima, encarou o teto e puxou quase que todo o ar que havia no quarto, fechou os olhos e ao soltá-lo um grito guardado, não no peito, mas no fundo de cada um dos pulmões escapou, escancarou a boca e arrancou lágrimas dos olhos de solidão. O grito foi sufocado pela verdade do corpo fora e suas mãos procuravam o amor ao lado.