quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Crise dos 30 e as viagens dos 20

De all star vermelho desbotado, calça jeans e uma camiseta branca. Passei em frente ao cursinho próximo ao trabalho e me dei conta de que me visto como os wannabe ESPM. O espelho do elevador é um péssimo conselheiro quando se está com a resseca do urso polar no meio do verão senegalês.

Enquanto o computador não liga, vou à copa pegar a maior caneca de café já vista nesse escritório de tecnologia. A porta rompe o silêncio e ele entra de camisa verde escuro e calça preta. Bom dia. E que belo dia. E sua banda de jazz. Era brincadeira. Ah, eu acreditei. Então acredita que você é bonito, bonito.

Fico tão nervosa e pego o maço fechado e saio para fumar. Dá para emendar dois já que a caneca tá cheia e o prédio vazio. Esses diálogos se alongam na minha cabeça e resolvo entrar e iniciar os trabalhos, checar se há email e inventar umas histórias enquanto não o vejo novamente.

Encontrei com ele na copa. Me pediu em casamento. Eu disse sim para tudo. ahhaha

Umas cinco conversas virtuais e nada muito interessante compartilhado em tanta janela. A música está se repetindo pela 5ª vez quando uma janela sobe. tem aula hoje? Tenho, mas acho que não vou. De novo. Então toma um drink comigo? Será que tomar um drink é adequado para minha faixa etária? Claro.

Não era o tipo de bar que tinha em mente, mas é bacana. Acho que sou a única pessoa de tênis aqui, mas ele não liga. Será? Acho que devia ter ido à aula, mas agora é tarde para sair correndo e caçar o ônibus. Nem deve passar ônibus aqui perto, muito menos para o mundo além ponte. Ah, é bonito. Mas nada a ver.

Ah, que conversa mais fora de lugar. Eu te levo para casa. Ah, beijo. Que beijo. Que beijo. Que perfume. Que coisa.

Mas dormir na casa dele e eu falo que dormi aonde para minha mãe? Sim, eu sou um daqueles wannabe ESPM. Acabo de provar. Sim, vou embora com você. Sim, tenho certeza. Não sei. Você me deixa um quarteirão longe de lá. Ai, mas minha roupa vai ser a mesma de hoje. Quem liga, posso trocar de roupa que ainda estarei como aqueles meninos de uma rua qualquer da Vila Olímpia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Dam Son

'We know how to speak, you little angel of darkness.'
MACHADO, Aline 2015









the real shia is the one who lives inside you

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A crise dos 30... Uma cidade para nós

Havia qualquer coisa de especial naquele momento, mas era tão simples, ao mesmo tempo singular. Talvez fosse a chuva, ou aquela música que remetia a um tempo já tão longínquo. Era um pouco do cheiro do bolo de banana, do mundo à meia luz, um pouco de nós dois espalhados no tapete da sala, imaginando um milhão de vidas e fazendo das nossas ideias suspensas em um gole de vinho, no perfume do seu uísque.

Havia qualquer coisa de ordinário na maneira pela qual nos servíamos das palavras para sonhar com um presente menos desacordado. Era como se mimetizássemos algo que há muito é repetido e compartilhado, há muito já nem tem significado – um significante vazio, uma imagem bonita mas superficial, plana.

Era viver de uma melancolia bonita, mas já tão gasta. Era tentar viver de uma esperança, de uma promessa. Mas era uma experimentação senão inovadora, concreta. Olhei em seus olhos e nos beijamos. Afinal, com o que nos angustiávamos se nossos sorrisos se encontravam para um carinho, se a família estava bem, se, mesmo que pouco, ainda possuíamos uns minutos para nós?

Com os dedos enrolados em meu cabelo, virou-se para tomar mais um gole do bourbon  e me deixou nas almofadas para trocar de música. Havíamos acabado de comprar uma vitrola e alguns discos em um feirinha de rua pela cidade. Trouxe o que colecionei ao longo desses trinta anos e estava guardado no armário da casa dos meus pais. A gente vive para acumular coisas? Nosso sucesso é medido por quantidade? Sonho que fosse de tempo. Seria mais bem sucedido aquele que pudesse escolher seus momentos – desde a que horas acordar até as coisas mais triviais como almoçar ou tomar café da manhã, como um final de semana prolongado para sempre.


Se Calvino estava correto e toda pessoa traz na imaginação uma cidade, desejava uma cidade de fantasia que me desse mais espaço, onde todas as possibilidades fossem realmente escolhíveis e não uma maneira tosca de persuadir nossas vontades. Afinal, havia um imperativo de medo rondando as ruas, como se quisesse impedir que fizéssemos uso de suas calçadas, conhecêssemos suas esquinas e nos apropriássemos do asfalto. Algo ameaçador a nos espreitar, impedindo nosso aconchego em torno de árvores e a possibilidade de ver para além do gritante iluminado. Mas era culpar demais algo externo a nós quando seria de nossa responsabilidade nos relacionarmos de outra maneira, se assim o desejássemos. O caso é que em nossa imaginação a cidade era opressora, e assim a tornávamos. A cidade era caótica, o que nos dava uma boa desculpa para bradar contra quem se atrevesse a passar na nossa frente.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Ah, os 30...

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. Todas as pílulas em cima da mesa do café. Dizem que um bom dia começa com uma xícara de café. Eu acho que um bom dia começa com um coquetel completo: Citalopran, Metformina, Fluoxetina, Yasmin, Vitamina D, Complexo B e duas aspirinas para acabar com a dor de cabeça de uma noite mal dormida.

Mal engolidas, o táxi já manda mensagens dizendo estar ali embaixo da minha janela. Pego o casaco, o cachecol, o crachá e a caneca de chá verde para tomar entre um anúncio mal escrito e um pedido estúpido de algum so called account manager.

Nem sete da manhã e o alarme do celular avisa que a reunião da equipe de 'social media' foi alterada para as 9. Ótima ideia, não fosse o fato de que ninguém chega antes das 11h. Estratégia para não participar de uma conversa com meia dúzia de bobagens e a outra meia dúzia também.

Alcanço um pacote de balas de mel com própolis para chegar ao fim do dia. Ah, o fim do dia tem yoga e o colchão ficou em cima do sofá do escritório. Corro para cima novamente e checo se na mochila está a calça azul nova  porque não dá mais para aparecer para Sidarta com aquela calça desbotada que murcha minha bunda.

Fechei o e-mail corporativo às 22h e já tem vídeo com russas de biquíni enviado pelos engraçadinhos do TI acidentalmente acionado pelo dedos nervosos e atrasados. A bunda dessas russas não pode ser real. Nem esses peitos. They don't match with those ruined faces. Isso me lembra a calça para o Sidarta. Abro a mochila novamente e alcanço o tecido frio que vai levantar até a minha alma.

Acendo as luzes e as paredes de vidro do escritório marcam minha silhueta segura com a meia calça plus(z) cinta. Mais café e mais uma pílula - FortéPharma para a pele. Há dez anos, a única pílula seria a do dia seguinte. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

_um dia...


Um dia eu volto a sorrir. Com um pouco de graça ou pela beleza, com suavidade e paz. Sem pressa de ter que acabar. Um dia eu volto a sorrir e olhar com olhos brilhantes, claros, livres da opacidade que a tristeza os oferece. Um dia eu volto a sorrir e você me dá um copo de leite com nescau na cama para que o dia comece doce. Um dia eu volto a sorrir e dormir deixará de ser molhada de lágrimas e frio de desesperança. Um dia a quentura do estômago sobe e esquenta o coração. Um dia ostracizo a dor, destituo a tristeza e elevo à minha senhora uma outra que não me deixe só. Um dia você vai sentar ao meu lado e nossa conversa, de ouvidos e braços bem abertos, vai levar toda o sofrimento embora.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

_educação

Ah, eu passei a semana fazendo rascunhos sobre educação, sobre alunos, sobre trabalhar com criança, sobre a emoção de ver seu trabalho todo dando certo, sobre ter momentos de descoberta incríveis ao lado de olhos novos no mundo, de outras perspectivas.

Passei a semana rindo da graça que todos eles são com seus comentários inocentes, despretensiosos, com suas curiosidades. Fiquei chorosa de vê-los querendo mais tempo comigo, querendo me levar para casa, sentindo em cada carinho um pouco da carência deles, de sua falta de lugar num mundo todo ocupado.

Queria explicar para eles que para mim foi muito mais emocionante, mais legal, mais divertido porque me deu um gás incrível para continuar no caminho que escolhi, porque garantiu minhas certezas, porque me fez perceber que eu aprendo muito e coloco em prática, que a solução é fugir de desespero e de gente desesperada. Que não há nada melhor na vida do que sorrir, brincar, aprender e mostrar um monte de novidades aos amigos.

Queria dizer para o Rodrigo que na aula de inglês a gente conversa bastante porque é lindo demais saber o que vocês pensam e vê-los inserindo no mundinho de vocês o tanto que aprendemos juntos. É bonito saber que vocês confiam em mim, que me contam coisas de vocês, o que sentem no coração e no que sonham.
É doce vê-los ansiosos por saber mais. Eu confio muito em vocês também.

Piadas, histórias, teatro, culinária, caça ao tesouro, jogos e brincadeiras. Comida de férias e amigos de férias. Espero que tenham tido ótimas férias e que guardem na memória a beleza de compartilhar momentos e acreditar e confiar no outro.

E sim, Vitor. Tem mais em janeiro. Claro que quero conhecer seu cavalo, Ana. Bia, adoraria ir ao cinema com vocês. Rodrigo, a gente vai sim se ver em Agosto. Sofia, sua lindinha!
Hora da foto, todo mundo falando 'Xixi'!



quinta-feira, 18 de julho de 2013

_viajar

Visitar novos lugares é sempre olhar um pouco mais atento para dentro de si. Perceber incômodos e fazer planos. É perceber numa outra forma de viver que a nossa não é natural, mas apenas uma possibilidade e que é possível escolher diferente, moldar, enriquecer a experiência. É pensar com olhos abertos, uma observação que se faz de si mesmo, reconhecendo no estranhamento a própria vida.



Com um país tão grande e cheio de particularidades, regionalidades, trocar de cidade, de Estado e visitar ruas com nomes tão familiares mas com características tão distintas é como andar por realidades paralelas. Sair de São Paulo é desacelerar, olhar de fora, ouvir, apreciar. A rotina, com suas poucas horas ociosas para se perder em pensamento tranca nossas percepções dentro dos sentidos e elas se perdem com o tempo, com a vida cheia de compromissos, com as necessidades imediatas.

A viagem te oferece o tempo livre. É preciso dias livres sem planos em viagens para viver esse momento sem hora marcada, sem corrida, sem ônibus com pressa, olhando para a paisagem com olhos de encantamento, descobrindo as esquinas, ouvindo as pessoas, rindo de si mesmo e da peculiaridade da vida que levamos em contraste com a que observamos.

Viagem pode ser só o consumo de museus, de bares, restaurantes, de produtos, de lembranças, ou pode ser a vivência de cada uma dessas marcas da cidade. Pode ser uma infinidade de registros de momentos, ou a real presença física e intelectual, vivendo com seus próprios sentidos, sem intermediários-lentes em cada passo que se dê pelos caminhos dos passeios.


Viajar é descobrir respostas sobre si, as dúvidas e o sentimento de estar perdido sem saber para onde ir, encontrar obviedades onde antes só via obscuridade sem solução. É descansar, esvaziar a cabeça de problemas práticos que não são seus para enchê-la de fantasia, de sonhos e projetos.

E fechar os olhos e sonhar é preciso.
Abrir os olhos e realizar para si é verdade. Mais uma.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Coreografia Canção da Meia Noite

Você viaja para o Rio Grande e descobre uma nova banda daquela dupla que foi para Porto Alegre e tchau. A letra é tri querida e o ritmo te embala em cada passeio, dos de ônibus, trem ou mesmo a pé. É aí que uma coreografia nasce.
Ouça a música aqui, siga os passos e embale o feriado.

Quando a meia noite me encontrar
Junto a você
Algo diferente vou sentir
Vou precisar me esconder
Na sombra da lua cheia
Esse medo de ser
Um vampiro


um lobisomem


um saci pererê♥




quinta-feira, 23 de maio de 2013

_duendes

Ah, uma noite de veludo. É assim que parece da sacada da minha casa, do jardim que brilha em frente à sala de estar. O mundo está aveludado nesses dias de frio e é só abrir a janela cedo ou no final da tarde para ver isso tudo brilhando. Mas não há nada mais lindo do que essa visão de agora, desse frio nebuloso da noite, da névoa do inverno cobrindo ruas, árvores, postes e pintando o mundo com uma camada matte.

Fui desperta pela luz da manha bem cedo. Ao voltar do banheiro e encontrá-lo deitado ao meu lado, sorrindo para mim vestindo aquela camiseta branca toda amassada e quentinha, passamos um tempo incontável olhando o mundo molhado e gelado da nossa cama quentinha, cheia de colchas e almofadas e nenhuma manta que não fosse 100% antialérgica para não te causar transtornos e falta de ar.

Você puxou seu celular para ler Ubaldo e suas mil histórias de Itaparica, da Bahia e de muitos outros lugares. E aí contou uma história a mim sobre um índio doido e me fez rir com toda a ironia que sabe ser das minhas figuras de linguagem preferidas.

Eu joguei o Kafka de lado e pensei que clássicos do século passado podiam esperar mais um pouco porque havia uma guerra de tronos começando a tomar conta da minha imaginação. E tudo isso se misturou ao som da voz do verdadeiro Lobão - Howlin Wolf. Já era mais do que um mundo todo encantado e aí você trouxe café com leite e brincou com a sobrinha que eu deixo repousando na caneca para meus duendes.

E os duendes seriam bem felizes nesse mundo opaco e incrivelmente encantado que se faz lá fora. Não precisariam bagunçar meus livros quando eu esquecesse de deixar café com leite na prateleira ao lado da cama, misturando mundos que não se combinam.

Damn you dwarfs!