quarta-feira, 27 de março de 2013

caca

Você que acha super normal entrar no trabalho e não ter hora para sair e ver essas horas extras indo para o limbo do esquecimento. Acha ok quando um funcionário vira noites seguidas para entregar um projeto que você não soube planejar de forma competente, prevendo todas as etapas e dando prazos reais para elas. Que acha que no mundo real de adulto é assim que tem que ser. Que para se dar bem na vida a gente tem ralar e isso significa trabalhar sem fim sem receber pelo tempo dedicado. Que não vai atrás dos seus direitos porque o mercado tem uma lista negra e outras empresas não te contratariam se você quisesse um mundo respeitando leis que trabalhadores muitas gerações anteriores lutaram para ver consagradas pela constituição. Que adora reclamar que o país não vai para frente mas não enxerga que sua omissão é parte do problema. Que o seu modo de vida é gerador de angústias, injustiças e desilusões. Sem contar os inúmeros profissionais que sofrem de depressão por conta da pressão que esse mesmo mercado regula a medida aceitável.
Você que critica seu colega de trabalho por ele ser idealista demais quando quer que as regras de respeito e profissionalismo sejam seguidas e propagadas. Que se acha melhor do que os outros por passar a vida dentro de um escritório, alterando o caminho trabalhar para viver, fazendo-o inversamente.
Você que não conhece seus direitos, que acha que as regras do jogo estão postas e que não há nada a fazer para mudar. Você que aceita condições miseráveis de trabalho de empresários que não deveriam nem abrir uma barraca de feira por falta de competência.
Você, amigo, é o responsável pela imensa pilha de processos trabalhistas que tramitam aos milhares todos os dias nos fóruns de todo país. Você é responsável pelo número de varas não ser suficiente para que os problemas dos trabalhadores sejam solucionados. Você é responsável por ver empresas chorando por centavos enquanto trabalhadores fazem empréstimos para liquidar as Casas Bahia. Que, aliás, você acha sempre que o devedor é o pobre, classe c, aquele que não entende como organizar seu orçamento. O mesmo que se vira como pode para manter-se com o nome limpo, uma das merdas que esse mundo que você ajuda a manter criou. Essa coisa de sua vida ser a possibilidade de comprar a crédito.
Caro, você está errado.
Você que acha que as pessoas não melhoram as condições de vida porque não se esforçam para isso. Você que acredita que só não estuda quem não quer. Você que acha que as oportunidades são todas iguais para todos, que não enxerga a rede de privilégios que tece a sociedade e que mesmo o carinha da periferia fazendo curso superior ele corre grande risco de ficar desempregado por não aceitar um trabalho que exige menos especializações mas que também não conhece ninguém importante para ajudá-lo a mostrar sua competência dentro das grandes empresas.
Você que não vê que o trânsito é culpa sua, que você escolheu usar transporte individual e a cidade pensa em coletivos. E assim que deve ser.
Você que acha que as empregadas domésticas terem direitos vai cagar nas suas contas, que elas vão exigir mais e isso é um absurdo.
Você que acha que ciclista tem que morrer porque a ciclovia tava fechada e o meu carro não pode parar. Você que segue a lei seca no twitter só para tomar as suas e fugir da multa. Você que acha legal tomar essas mas não imagina quanta semelhança há entre um copo de cerveja fora do controle e ser doente. Assim como aquele cara da cracolândia que você aplaudiu quando a polícia chegou atirando para acabar com aquela nojeira. Você que não entende que legalizar uma coisa não significa incentivo ao uso e muitos menos aumento do consumo. Você que apoia internação involuntária, destruindo o trabalho de anos que psicólogos, os profissionais especializados em lidar com problemas como uso de drogas, despenderam para criar confiança e aproximação com os doentes.
Eu podia continuar por muitas horas, mas depois de toda a porcaria que saiu, agora começa um glitter todo roxo a mostrar para mim que tem jeito. Que há gente no mundo, e muita, apesar de você achar o contrário, que está se mexendo, começando pelo pequeno, sem marchas contra corrupção que não têm efeito algum e muitos menos geram uma real discussão. Que acredita que cumprimentar o porteiro, chamar as pessoas pelo nome e ouvi-las faz mais diferença do que postar na internet o quanto se está indignado com a 'merda de país em que a gente vive'.
Você é the one to blame for all this shit. E também é quem pode fazer alguma coisa para que isso tudo mude. Quando você repete sem pensar que isso e aquilo é uma questão cultural, não se exclua desse cultural, você não é um visitante extraterrestre. Olhe para dentro. E boa noite.

3 comentários:

¿Doubter? disse...

Clap, clap, clap.

Mari Migliacci disse...

uau. coisinho aqui comentando e aplaudindo? nossa...demais!

Sandra disse...

: ) é uma concordância que equivale a mil palavras