domingo, 10 de junho de 2018

the mad ones

"the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes "Awww!" J.K - On the Roa

terça-feira, 22 de maio de 2018

o grito

A cortina estava aberta e a fresta da janela trazia o vento frio às suas costas. Lembrou-se de respirar. Como podia se esquecer tão frequentemente de respirar? Virou de barriga para cima, encarou o teto e puxou quase que todo o ar que havia no quarto, fechou os olhos e ao soltá-lo um grito guardado, não no peito, mas no fundo de cada um dos pulmões escapou, escancarou a boca e arrancou lágrimas dos olhos de solidão. O grito foi sufocado pela verdade do corpo fora e suas mãos procuravam o amor ao lado.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Namorados, Manuel Bandeira

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

Manuel Bandeira BANDEIRA, M., Libertinagem, 1930.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Luz e (ah!) escuridão

The attempt at introspective analysis […] is in fact
like seizing a spinning top to catch its motion, or
trying to turn up the gas quickly enough to see how
the darkness looks.
William James

Eu estava farto de luz. Todos os países que
percorrera, todos os cenários que contemplava,
inundava-os a luz do dia, e, à noite, a das estrelas.
Ah!, que impressão enervante me causava essa luz
eterna, essa luz enfadonha, sempre a mesma, sempre
tirando o mistério às coisas... Assim parti para uma
terra ignorada, perdida em um mundo extra-real
onde as cidades e as florestas existem
perpetuamente mergulhadas na mais densa treva ...
Não há palavras que traduzam a beleza que
experimentei nessa região singular. Porque eu via as
trevas. A sua inteligência não concebe isto, decerto,
nem a de ninguém ...
Mario de Sá-Carneiro

By day there was nothing, but by night there were
lamps, and George Stransom was in a mood that
made lamps good in themselves. It wasn’t that they
could show him anything, it was only that they could
burn clear.
Henry James

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warningIn the words that it was forming
And the sign said, the words of the prophets are written on the subway walls
And tenement hallsAnd whispered in the sounds of silence
Paul Simon

You wanna it darker
We killed the flame.
Leonard Cohen

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Intertexto, de Bertolt Brecht

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


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Rio de Janeiro, Brasil. Fevereiro/2018

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Conheço o meu lugar - Belchior


O que é que pode fazer o homem comum
Neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
A vida comovida
Inteiramente livre e triunfante?

O que é que eu posso fazer
Com a minha juventude
Quando a máxima saúde hoje
É pretender usar a voz?

O que é que eu posso fazer
Um simples cantador das coisas do porão?
Deus fez os cães da rua pra morder vocês
Que sob a luz da lua
Os tratam como gente - é claro! - aos pontapés

Era uma vez um homem e o seu tempo
Botas de sangue nas roupas de lorca
Olho de frente a cara do presente e sei
Que vou ouvir a mesma história porca
Não há motivo para festa: Ora esta!
Eu não sei rir à toa!

Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)
Pois sou uma pessoa
Esta é minha canoa: Eu nela embarco
Eu sou pessoa!
A palavra pessoa hoje não soa bem
Pouco me importa!

Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

janeiro

Com dificuldade de comer
me livro dos excessos
retomo
e aguardo.

O café acolhe e abraça,
o cigarro me acompanha, sempre.
Trago
e refaço.

Deito e ilumino
o que adormecia em mim.
E agora
volto.

Arrepiada com o toque,
a lembrança renasce.
Olho
e recon(m)heço.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Livros - 2017

Ano passado tive a grande ideia de anotar os livros lidos ao longo do ano e nunca imaginei o quanto isso me ajudaria a lembrar de passagens, de sensações e de ideias vividas ao longo da leitura só de checar a lista. Esse ano repeti a dose e resolvi publicar para que não se perdesse nos meus inúmeros cardeninhos de anotação e agendas e fosse encontrada somente anos mais tarde com uma exclamação de total surpresa.

Anotei somente literatura e deixei teoria para os meus cadernos de fichamento, acho que é o suficiente.

Billie Holiday, de Sylvia Fol
Infância, Graciliano Ramos
Rita Lee, autobiografia
A amiga genial, Elena Ferrante
Os duídas, Filippo L. Olivieri
História do novo sobrenome, Elena Ferrante
Meio Sol Amarelo, Chimamanda Ngozi Adichie
A Montanha Mágica, Thomas Mann
The Last kingdom, Bernard Conrwell
The Pale Horsemen, Bernard Cornwell
The Lords of the North, Bernard Cornwell
Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie
Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie
A história da filha perdida, Elena Ferrante
A história da menina perdida, Elena Ferrante
Um copo de cólera, Raduan Nassar
Sword Song, Bernard Cornwell
Contos, Machado de Assis
O pêndulo de Foucault, Umberto Eco
Correr, Dráuzio Varela
A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksiévitch
Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro
Christmas Carol, Charles Dickens
A Descoberta da Escrita, Karl Ove Knausgard
A Alma encantadora das ruas, João do Rio (lendo)

terça-feira, 20 de junho de 2017

És um senhor tão bonito, Tempo Tempo Tempo Tempo




Em sua exposição sobre o mal-estar na civilização, Freud aponta três fontes que justificariam o sofrimento: a consciência sobre a finitude da vida, as pressões que o mundo social e a natureza impõem sobre os indivíduos e a sensação de incapacidade de modificação frente a essas demandas e o sofrimento proveniente das relações humanas que se estabelecem ao longo da vida. A partir dessa leitura, esse artigo pretende expor as maneiras pelas quais o sofrimento de se reconhecer parte de uma cultura, e submetido a ela, é sentido no mundo contemporâneo e avaliar não somente as demandas da vida social, mas também de que maneira, ao se refletir sobre o mal-estar, surge a possibilidade de criação, fabulação e imaginação, enriquecendo laços, nomeando o sofrimento não para ser evitado, mas compreendido e reelaborado.

O Tempo

A finitude e sua característica elementar de imposição de limites frente à potência criadora do homem é também sua força motriz de fabulação. A relação vital que se estabelece entre homem e o tempo se dá em dois sentidos, um que se aproxima do cumprimento das normas e deveres impostos pela vida em sociedade, do trabalho e estudos e no que se refere à sobrevivência, outro direcionado à certeza do fim. No primeiro caso, o mal-estar gerado ocorre quando da impossibilidade de fuga e um estreitamento a partir da repetição cotidiana da rotina e o direcionamento para o segundo caso. A certeza do destino inexorável de todos os seres aparece, portanto, como justificativa para o anseio de criação de uma nova configuração das atividades realizadas por e para o ajustamento e concordância com as normas e necessidades impostas pela organização social. Porém, o mal-estar gerado pelo desajuste com a vida cotidiana e a sensação de encurtamento do caminho direcionado ao fim por conta de sua (infinita) repetição parecem ser a causa não proclamada para o desacordo com o tempo.
O tempo também coloca a questão do sofrimento gerado nas relações humanas e o amor e os sentimentos derivados dele como uma maneira de lidar e uma causa para aflições da vida em sociedade. ‘A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida’. Nessa sentença proferida pelo poeta Vinícius de Moraes, essa aporia se faz em poesia quando anuncia o encontro como uma arte vital ao mesmo tempo em que sua dificuldade de concretização o colocaria como uma fonte de angústia e ansiedade.
A nostalgia se coloca também como uma retomada e reconstrução de uma narrativa biográfica idílica, acalentando o coração perturbado do presente e oferecendo uma demonstração de boa utilização do tempo disponível por meio da possibilidade criadora da memória. Assim, o indívido, ao se deparar atormentado no presente, dirige-se ao passado como uma compensação pelos sentimentos negativos que o encarceram numa configuração inescapável, porém vislumbrando nos tempos já distantemente vividos a concretização de sonhos e desejos desse eu saudoso e admirado.
A arte, especialmente a literatura, oferece, por outro lado, uma nova relação com o tempo e permite ao sujeito o afastamento inicial na posição de observador/leitor da narrativa de um ou mais personagens além do contato com o sonho acordado da civilização[1]. É no contato com o tempo da narrativa e das questões das personagens e suas relações com esse tempo que o sujeito-leitor tem a oportunidade de criar novas percepções desse tempo presente e com a narrativa de sua vida.
Essas novas percepções se dão de duas maneiras diversas e complementares. Primeiro e já citado, o tempo da narrativa, determinado pela organização textual produzida pelo escritor e o recorte realizado para a apresentação das situações vividas pelas personagens, na descrição daquilo que foi e do que não foi contado. A partir dessa primeira maneira, o sujeito-leitor se vê frente à outra vida para, com seu distanciamento, imprimir-lhe significados. A segunda maneira de perceber esse nova relação com o tempo do ato de ler é por meio do afastamento do sujeito-leitor de sua vida cotidiana ao abrir-lhe um portal para o escape da vida compartimentada em atividades do mundo concreto, impondo-lhe um lento e gradual desfoque do mesmo ao enfatizar no olhar a atenção ao tempo paralelo, fantástico e abstrato gerado pela aproximação com a narrativa.


[…] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante (p. 117).[1]
           
Nesse trecho escrito pelo já saudoso professor Antonio Candido em seu necessário e essencial Direito à Literatura, a literatura é posta como uma poderosa ferramenta com a qual o homem não só aprende e reflete sobre as questões angustiantes da vida, mas indica que por meio da palavra escrita em prosa e poesia é possível transgredir as normas nas quais nos sentimos enredados e imaginar, criar e fabular outras formas de vida, outras relações com os aspectos que dela nos ressentimos, outras saídas para lidar com o desajuste, o deslocamento, o não-pertencimento. 
Esse papel ambivalente da literatura, o de entreter e o de discutir questões relevantes para a compreensação e criação de formas de organização social e psíquica, encontra-se intimamente ligado à sua proposta também ambivalente de relação com o tempo, presente e o da narrativa, e produz uma força que parte do distante, do outro, e transfere-se para onde toca nos corações e mentes daqueles que submergem no universo irrestrito, infinito e liberto para analogamente recriarem e reelaborarem as noções que carregam de sofrimento e capacidade de inserção no mundo social, não apenas se submetendo servilmente às demandas que dele provêm, porém enxergando novos pontos de vista sobre as questões e enriquecendo as maneiras de acessá-las e compreendê-las, partindo não da recusa do sofrimento, mas de seu  convite para, por meio dele, reconstruir.
 




[1] CANDIDO, Antonio. Direitos Humanos e literatura. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E… Cjp / Ed. Brasiliense, 1989.