quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Sombras de Goya

Fui assistir ao filme ontem com minha hermana. Adoro a espera para entrar na sala de cinema. Comer um negocinho, tomar café, dar voltas intermináveis em livrarias, falar um monte de bobagem, analisar a condição de solteiras e o futuro que nos aguarda e esperar, esperar. O gozo está na espera, me falaram.

Os trailers iniciais me deixaram com a vontade de voltar para ver alguns outros. 'A vida dos Outros' eu ainda estou devendo ao ConCa. 'O Caçador de Pipas' quase me fez chorar na sua curta apresentação de 3 minutos. Para aqueles que leram o livro, os rostos de Hassan e Amir se encaixam com os atores escolhidos. Baba podia ser um cara maior. As cenas da tomada do Afeganistão impressionam (dentro dos 3 minutos, as cenas do trailer não completam um minuto e já causaram impacto). Além destes, interessei-me por 'A Culpa é do Fidel', sem muitos detalhes.

Minha repulsa pela Igreja Católica aumentou um pouco após Goya. A Inquisição é o fator que faz desenrolar e enrolar a trama do filme. Ao analisar obras do artista que eram vendidas por toda a Europa e chegavam também na América, os padres iniciam uma discussão sobre a 'diabolicidade' daquele que retratava o mundo do feios e agonizantes em suas figuras.

A partir daí, padre Lorenzo incita nos clérigos o desejo ao retornno da severidade posta de lado pela Igreja. Deve-se, então, prestar atenção a qualquer atitude suspeita por parte da sociedade espanhola.

A vítima escolhida é a modelo de vários quadros de Francisco Goya, que durante um jantar com amigos e família em uma taberna, recusa-se a comer carne de porco. Inês é acusada de atitude 'judaizante' e é chamada ao interrogatório católico. A conhecida tortura a faz 'confessar' seu pecado e ela espera julgamento durante 15 anos no porão do monastério.

Sua família, abastada e religiosa família de comerciantes, sofrendo com a prisão da jovem filha, procura ajuda com o artita, que também havia trabalhado no retrato daquele padre Lorenzo, e pede intervenção.

Convidado pela família a um jantar em sua homenagem, participa de uma discussão sobre tortura e sua eficácia. Empiricamente demonstrada, torna-se claro, ao padre e ao espectador, o quanto essa prática é suja e maquiadora da realidade.

No vai e vem da história, o padre é forçado a fugir da Igreja e a jovem continua acorrentada no porão. Anos se passam e Napoleão invade a Espanha, ataca os cidadãos e impõe a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, derrubando a Igreja e os clérigos. O julgamento de seus membros é realizado por este que não é mais padre, mas só Lorenzo. Com discurso fervoroso a favor da tríade da Revolução, materialista, declara-os culpados.

A pequena Inês, 15 anos depois, é libertada das correntes da Igreja completamente desfigurada e desnorteada. As desgraças da vida dela não chegam ao fim, mas sua consciência em relação a elas torna-se quase nula.

A França e seus franceses corajosos são expulsos pelos ingleses e o poder retorna à Igreja. Novos julgamentos, vingança, insanidade, morte à Lorenzo - 'justiça'.

O filme é um retrato dos 'ideais' relacionados ao poder e à ganância. Toda a fé, tanto política e social, quanto religiosa, extingui-se com o trocar de cetro nos tronos de uma sociedade. Suas crenças são inerentes à posição que um indivíduo ocupa.

Além da dura reflexão, o filme mostra as belas técnicas e obras de um dos grandes artistas daquele país. Suas figuras agonizantes e agoniadas, dolorosas e dignas de pena, belas e verdadeiras, enchem a tela - do cinema e das tintas.

4 comentários:

Del disse...

Que bom que chegou a temporada dos filmes ganhadores de prêmios, né Gostei muito da sua resenha, deu vontade de assistir, não me canso de filmes que mostram a Igreja como eu acredito que seja. Espero que tenha uma do filme O caçador de pipas.:)

rô disse...

O filme deveria ser filmado de novo em cima da resenha que você escreveu, mana! rs Na boa, vc deu uma bela caprichada, pq o filme não vale os 11 reais de quarta-feira!
Decepcionante e sem uma história que amarra, que te prende na trama.
Tlz um filminho pra DVD, em dia de promoção.

Bjinho.

Paula Oliveira disse...

ôoo mana, brigada pelas palavras lá no meu blog... obrigada mesmo.
quem dera eu conseguisse me livrar mesmo dessa apatia monstruosa que eu to vivendo, é bom nem ficar falando né. e eu to me esforçando pra melhorar (vide post otimista...rs). tá difícil mas eu sou maior q isso (pelo menos to acreditando nisso).
esse seu post me encheu de vontade de ir ao cinema e faz um tempo q não vou... acho q vou fazer isso amanhã.
tenho entrado pouco na internet, to com saudade de conversar com vc...

um beeijo, mari.
amo vc!

Sel Souza disse...

Muito legal, parabéns, fiquei encantada lendo e lembrando de como é bom ir ao cinema e ficar nessa espera gostosa. Valeu!