quinta-feira, 17 de abril de 2008

Casei

Fui a uma palestra dele há anos atrás. Sentei na primeira fileira, concentrada. Jovem recém-formada, devorava suas paráfrases de Freud e adorava suas alfinetadas em Jung. Suas colunas eram recortadas do jornal e coladas naquele caderno que recebia todas minhas lamentações, angústias e paixões.

Os olhos escondidos no fundo das lentes do óculos, corridos nas anotações daquelas folhas branquinhas, riscadas de azul, vez ou outra fugiam rapidamente para minha blusa verde, meus óculos brilhando à meia luz.

Um café e mais meia dúzia de papos de temas conversados dentro da minha cabeça e um jantar. Eu confesso que achei meio cafona, me senti um pouco mais velha do que era...jantar? Não estava muito para 'romanticidades', 'galanteios'. Na verdade, estava mal acostumada a seduzir e voltar ao conforto de meu dias vazios.

O pedido foi numa manhã de sexta-feira, numa daquelas manhãs que fazem com o que dia fique muito melhor (às vezes mais de um dia muito melhor depois de uma dessas manhãs). Deitada, olhando o lado de fora de uma janela entreaberta, encontrei olhos semi-abertos, semi-cerrados, semi-acordados. 'O que você acha de casamento? Te perturba ainda essa idéia?' Uma lágrima escorreu tímida e prendeu-se entre os lábios que seguravam a palavra 'aceito'. hahahaha...era só isso que pensava em gritar.

Racional, distante e quase doída, refiz meu discurso de ataque sem parecer muito que havia mudado tanto em tão poucos e curtos e longos e eternos meses.

Ele tirou uma das margaridas do vaso da sala - meu presente - e arrumou entre os cachos do meu cabelo. Era a aliança que eu me recusava (e ainda me recuso) a usar. Foi dali que tirei todas as margaridas que estão sempre espalhadas por todos os lados da minha vida.

Foi num sítio, dia que começou meio cinza, mas que logo virou azul, que prendi mais milhões de margaridas no cabelo. Foi descalça, com um vestidinho branco costurado por algumas das minhas amigas, que aceitei toda a paz tumultada de tê-lo ao meu lado.

Temos 3 filhos - Pedro, Gabriel e João - 24, 22 e 15 anos, respectivamente. Pedro resolveu-se pelos lados do jornalismo e namora Daniel. Gabriel escreve, pára, lê, azedo, às vezes chatinho. É o que mais se parece comigo. É o que mais deita no meu colo e brinca nos cachos do cabelo com os olhos fechados. João se tranca no quarto e fica horas falando com seus teclados loiros, morenos, mais velhos e mais novos. Vive a vida daqueles em quem atirávamos pedras (pontiagudas). Devia jogar mais futebol.

Ah....o nome dele é Eduardo ...eu me chamo Clarice, prazer! Desculpe levantar correndo, parecendo cachorro magro, mas tô atrasada. Obrigada pelo café da manhã. Beijo.

3 comentários:

Cintia disse...

Adorei mana, loucura pura! Mas casar deve ser isso mesmo, loucura pura!
Teje loucas! amo
beijos

Anônimo disse...

Teje casada, teje se vendo no futuro... hahahahahahaha! Sera?...
Bem interessante, mana!
Parabens!
Bjomeligatejeescritora
Tina

Paula Oliveira disse...

Uia!! Muito bacana!!
Uma linda história de casamento!!