sábado, 15 de dezembro de 2007

Solidão, solidez

Marília abria os olhos mais uma vez entre tantas vezes que já os abrira e tantas que ainda abriria. Seu corpo doía, suas mãos tentavam alcançar o relógio, desligar o despertador, levantar-se e fazer mais aquela segunda-feria, mais aquele início de qualquer coisa, mais aquele pedaço até o próximo final de semana, mais uma semana que a separava dos seus dois dias de solidão, aqueles dias que a solidificavam no que era, no que queria ser, no que ansiava, arrastando-se pelas avenidas engarrafadas dessa cidade suja.

Ia de encontro ao chuveiro, que parecia não funcionar direito, deixando toda aquela água fervendo cair com o pingo contínuo e cansado da água gelada, estridente entre tanta quentura.

Vestia o vestido negro, all star e jogava a mochila nas costas. Corria entre mordidas na banana meio passada, da semana passada. Corria para seu lugar vago no ônibus lotado, seu mp3 funcionava. Ouvia guns of brixton, não com the clash, mas com novelle vague, como uma bossinha em inglês, um som no meio daquele game called survivin'.

A cabeça recostada e os olhos a vagar pela corrida de pontes, avenidas e prédios. Seu dia corria como se não houvessem tantas linhas a preeencher no computador, como se não houvesse tanta notícia a ler na internet, como se não houvesse tanto e-mail a responder, pessoas a ligar, tantos rostos distantes em pensamento, tantos mundos complexos por trás de faces em complacência, em paciência, seguindo dedos batendo e castigando teclados.

Sua noite começava com nova viagem de ônibus. As luzes de Natal enchiam a memória que transbordava de boas recordações. Agora sentia um azedo subindo seu corpo, como se sua tristeza disfarçada de ironia tivesse contaminado as últimas gotas da época que mais se sentia aconchegada. Sentia a solidão solidificando-se dentro de seu peito, amargurando suas palavras, envenenando pensamentos.

Tindersticks e lágrimas escorriam naquela travellin' light. Tindersticks e aquele último beijo, aquele último abraço, as últimas palavras, aquele último carnaval....teve seu fim.

Acomodava-se com um cigarro entre os dedos e ligava para ouvir sua voz. Ligava para sentir suas cordas vocais acariciando seu ego, seu colo, sua face, enxugar suas lágrimas, ninar sua dor.

Dirceu tossia antes do alô. Dirceu e sua voz grave, vibaravam os dois na pequena mulher alta, na mulher que se tornava pequena a cada dia dentro do tão grande que era sua ambição. Sua felicidade, seu sonho.

Marília de Dirceu. Marília do mundo e de ninguém. Não se sentia parte daquele lugar, não se sentia em comum, mas incomum. Ele viria buscá-la, ninar a cabeça cansada, os olhos secos, o coração estrangulado.

Os cachos dela, o colo dele. Ela segurava na garganta tudo aquilo que a fazia tremer e soluçar, sozinha. A mão dele escorreu pelo seu rosto e caiu entre os seios, como se quisesse segurar o coração dela com as mãos. As lágrimas escorriam para limpar a dor de suas olheiras, a canseira de suas palavras. Adormeceu com a última gota de esperança de uma vida menos solitária. Ele a deixou deitada no sofá verde e foi embora. Dirceu de Marília. Assustara-se com a pequena sua mulher. Sentia a dor dela entre seus dedos, entre suas palavras.

Pegava o ônibus lotado, sentava-se com seu mp3 e ouvia o som que a fazia viajar por entre as ruas de sua cidade. O pensamento dele era dela. Dirceu de Marília.

5 comentários:

Paula Oliveira disse...

A Marília não deve deixar secar essa última gota de esperança.

Adorei o texto, mana

bjooo

daniel disse...

marina de dirceu

Cintia disse...

Ihhh é marília ou marina?!?! rsrs
adorei o texto mana...
beijos

Mari Migliacci disse...

não é marina!!!
é marília.
não sou eu, minha gente.
estou lendo um livro que me deixou melancolicamente reflexiva e, inspirada por essa vibe, escrevi esse texto.
não confunda cu com bunda!
bjomeliga

Tina disse...

Marina de Dirceu... Lindo texto!
Não perca a doçura, maninha!
Viva um dia de cada vez...
Bjomeliga