O mundo cu-rporativo possui um léxico bastante específico, principalmente as cu-rporações digitais e seu envolvimento no competitivo seguimento de marketing. Este breve artigo tem por objetivo apontar as particularidades do discurso desse contexto e exibir as implicações nas relações sociais - de poder, e culturais.
A análise discursiva crítica de Michel Foucault apresenta o discurso como não somente o produto do contexto no qual é realizado mas como o 'produtor' de ideologias, significados e identidades. Sua teoria vai além, expondo o discurso como uma forma de controlar o que é produzido numa luta de poder sobre a enunciação através da realização em enunciados.
Bakhtin expõe que o enunciado é polifônico, ou seja, construído por diversas vozes, o que nos faz chegar à intertextualidade - todo discurso (enunciado, ou statement em inglês - enuncié em francês) é uma repetição de enunciados previamente realizados.
Para melhor expor as visões teóricas do que podemos chamar de Critical Discurse Analysis, movimento iniciado na França em resposta à análise descritiva feita até então, tomemos nosso objeto para apreciação prática do que foi exposto acima.
'A grande trend deste quarter é a mídia focada no mundo mobile. Possuímos um market share de 30%, o que nos dá um forecast de follow-up para otimizar o mercado através da união de adnertworkings. É uma tática que vem dando certo por agregar conteúdos de grandes veículos de comunicação. A equação é simples: os anunciantes vão atrás das trends. Com parceiros de peso e a vontade de se fazer presente numa mídia que se torna cada dia mais importante, o espaço publicitário mobile se valoriza.'
Pela teoria analítica de Foucault, o discurso é produto - repetido - mas também produtor de ideologias, identidades e significados. Produz e é produto da ideologia da globalização prevalecente,da comunicação global.O que está em questão fundamentalmente aqui é a lógica da política econômica global que está mobilizando os novos meios de comunicação e informação para criar um espaço extraterritorial de empresas, desafiando as realidades culturais e políticas do mundo real no qual vive a maioria nós.
A utilização de termos em inglês, predominantemente, por exemplo, é fruto da preocupação da globalização da informação. Mas, mesmo a estrutura do discuso proferido pelos publicitários marqueteiros em questão também segue um padrão, respondendo à exigência de se usar somente uma linguagem para a comuniação destinada a qualquer mercado. Com a 'multinacionalização' de empresas cada vez mais crescente, esse fenômeno linguístico espalha-se com o objetivo de unificar a mensagem e a estrutura dessa.
Esquecendo-se das particularidades de cada língua, de cada uso da língua, esse processo tende a ser empobrecedor, restringindo a possibilidade de expressão e engessando o uso nesse contexto. A polifonia acaba por não acrescentar nenhum novo valor ou significado a cada repetição do enunciado, esvaziando-o. O esvaziamento ocorre também no seguimento da identidade. Ou melhor, a identidade é somente 'decalcada', mas seus significados completamente perdidos.
O artigo não tinha intenção de ser sério, nem acadêmico. Sua estrutura seria uma forma de usar um discurso para criticar outro, o acadêmico contra o corporativo. The goal, infelizmente was not achieved. Somente escrevendo sobre um objeto podemos realize o quanto somos próximos daquilo que criticamos, de uma certa forma.
O discurso corporativo é somente um genre no meio de tantos outros que se perdem no vazio da repetição de ideias de terceiros, nas quais o autor da análise se perde e não responde ao proposto pelo trabalho. O summary, normalmente, acaba por ser somente um desejo não concretizado pelo paper.
Eu perdi o feeling para a crítica corporativa - graças às forças divinas - mas ainda tenho para a acadêmica. E digo mais, é o objeto que mais me interesso em criticar (adoro, in fact). No final das contas, o meu objetivo acabou virando mote para o que aqui se concretizou. Os letrólogos devem entender o que quis dizer. E, desculpe, mas se tiver que explicar acaba todo o encanto do desencantado texto.
segunda-feira, 9 de março de 2009
Elogio da Somba - Borges
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
A sorte de um amor tranquilo...well, almost!
2009 começou muito bem. Uma ótima continuação de 2008, que foi um ano de conquistas extremamente importantes na minha vida, de lições valiosas, de posicionamento profissional e pessoal, escolhas importantes, foco. Comecei o ano numa praia linda, numa cidade que eu adoro e que, por mais defeitos que eu encontre, eu sempre quero voltar. Pé na areia, descanso, enxergar o horizonte. Em São Paulo o horizonte é apenas metafórico. Já no Rio essa imagem se faz real e transforma o metafórico da cidade na concretude da imensidão do mar.
Aí voltei para a realidade da conta negativa, do trânsito da manhã, do computador, dos papéis bagunçados em cima da mesa e do amor. Descobri que ele existe da forma mais pura e sincera, que ele cresce com o tempo, que ele aperta com a distância, que ele dói gostoso com a felicidade. Descobri que o amor é leve, que é tranquilo, que ter aqueles olhinhos verdes ao meu lado trazem uma paz e uma vontade de fazer sempre mais.
Também descobri o valor das palavras. Estou aprendendo a dar valor a elas. Aprendendo que os sentimentos não são óbvios e que, por mais transparentes que tentemos ser, não há nada mais bonito do que encontrar palavras que tentem traduzir o que sentimos e como sentimos. E como isso é importante, sendo transmissor ou receptor da mensagem.
Mas, uma vez por mês, às vezes até menos do que isso, durante um ou dois dias, que infelizmente sempre caem no final de semana, eu sou atacada por uma deprê, um desânimo, uma carência extrema, fico cheia de manha, chorosa, completamente louca. Com isso, todo o meu amor sofre com a impaciência contraditória de quem já mostrou ser descendente de Jó (mas que no fundo sempre foi ansiosa, só aprendeu a controlar).
Durante dois dias eu duvido de tudo que foi descrito acima, eu esqueço de tudo o que aconteceu, eu quase me desespero. São dias difíceis na vida de uma mulher. São dias que a gente mostra o quanto somos desequilibradas, mesmo afirmando o contrário no resto do mês.
Depois que esses dias passam, fico com uma ressaca de TPM. Fico me achando exagerada (e não é por menos), fico querendo 'consertar' a merda daquela outra mulher insana que toma conta de mim durante o final de semana. Aquela mulher insegura, chata, pegajosa. 28 dias no mês na maior tranquilidade, paciência e liberdade para ter ressaca de dias por causa de um final de semana incorporada pela personificação do pesadelo. Impressionante é que quanto mais segura eu estou em relação às minhas escolhas, a minha vida, ao meu amor, mais insegura eu fico nesses dois dias de terror. Uma relação diretamente proporcional.
E agora passou. Além disso, descobri um remédio ótimo para estresse e ansiedade, e mês que vem espero que esses dois dias não sejam desperdiçados com nóia que não pertence a mim (de jeito nenhum).
Aí voltei para a realidade da conta negativa, do trânsito da manhã, do computador, dos papéis bagunçados em cima da mesa e do amor. Descobri que ele existe da forma mais pura e sincera, que ele cresce com o tempo, que ele aperta com a distância, que ele dói gostoso com a felicidade. Descobri que o amor é leve, que é tranquilo, que ter aqueles olhinhos verdes ao meu lado trazem uma paz e uma vontade de fazer sempre mais.
Também descobri o valor das palavras. Estou aprendendo a dar valor a elas. Aprendendo que os sentimentos não são óbvios e que, por mais transparentes que tentemos ser, não há nada mais bonito do que encontrar palavras que tentem traduzir o que sentimos e como sentimos. E como isso é importante, sendo transmissor ou receptor da mensagem.
Mas, uma vez por mês, às vezes até menos do que isso, durante um ou dois dias, que infelizmente sempre caem no final de semana, eu sou atacada por uma deprê, um desânimo, uma carência extrema, fico cheia de manha, chorosa, completamente louca. Com isso, todo o meu amor sofre com a impaciência contraditória de quem já mostrou ser descendente de Jó (mas que no fundo sempre foi ansiosa, só aprendeu a controlar).
Durante dois dias eu duvido de tudo que foi descrito acima, eu esqueço de tudo o que aconteceu, eu quase me desespero. São dias difíceis na vida de uma mulher. São dias que a gente mostra o quanto somos desequilibradas, mesmo afirmando o contrário no resto do mês.
Depois que esses dias passam, fico com uma ressaca de TPM. Fico me achando exagerada (e não é por menos), fico querendo 'consertar' a merda daquela outra mulher insana que toma conta de mim durante o final de semana. Aquela mulher insegura, chata, pegajosa. 28 dias no mês na maior tranquilidade, paciência e liberdade para ter ressaca de dias por causa de um final de semana incorporada pela personificação do pesadelo. Impressionante é que quanto mais segura eu estou em relação às minhas escolhas, a minha vida, ao meu amor, mais insegura eu fico nesses dois dias de terror. Uma relação diretamente proporcional.
E agora passou. Além disso, descobri um remédio ótimo para estresse e ansiedade, e mês que vem espero que esses dois dias não sejam desperdiçados com nóia que não pertence a mim (de jeito nenhum).
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Cativar
verbo
transitivo direto, bitransitivo e pronominal
1 tornar(-se) cativo; prender(-se) física ou moralmente a; sujeitar(-se)
Ex.:
transitivo direto
2 Derivação: sentido figurado.
guardar em seu poder; reter, conservar
Ex.: seus olhos cativavam a luz da manhã
transitivo direto
3 Derivação: sentido figurado.
obter a simpatia ou o amor de; seduzir; atrair
Ex.: procurou c. o patrão com pequenos obséquios
pronominal
4 Derivação: sentido figurado.
ficar encantado com; enamorar-se, apaixonar-se
Ex.: cativou-se da mulher do sócio
transitivo direto, bitransitivo e pronominal
1 tornar(-se) cativo; prender(-se) física ou moralmente a; sujeitar(-se)
Ex.:
transitivo direto
2 Derivação: sentido figurado.
guardar em seu poder; reter, conservar
Ex.: seus olhos cativavam a luz da manhã
transitivo direto
3 Derivação: sentido figurado.
obter a simpatia ou o amor de; seduzir; atrair
Ex.: procurou c. o patrão com pequenos obséquios
pronominal
4 Derivação: sentido figurado.
ficar encantado com; enamorar-se, apaixonar-se
Ex.: cativou-se da mulher do sócio
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
12 de Novembro de 2008
Meu poeta eu hoje estou contente
Todo mundo de repente ficou lindo
Ficou lindo
Eu hoje estou me rindo
Nem eu mesma sei de que
Porque eu recebi
Uma cartinhazinha de você
Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser
Você tem que me fazer
Um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porque
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida ‚ nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois
Todo mundo de repente ficou lindo
Ficou lindo
Eu hoje estou me rindo
Nem eu mesma sei de que
Porque eu recebi
Uma cartinhazinha de você
Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser
Você tem que me fazer
Um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porque
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida ‚ nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
A Dor em Capítulos - I
Eu vi meu sobrinho na calçada oposta e brequei. Meu pé afundava-se no acelerador e eu ia estourar o muro se não tivesse encontrado os olhos de Pedro do outro lado da rua. Eu ia dar um fim na loucura dolorida que apertava meu peito há 20 anos. Iria deixar entre o muro e o poste toda a obsessão, a doença chamada Carlos.
'Entra aqui' gritei a ele. Gritei implorando ajuda. Meus olhos devem ter assustado o garoto. Olhos vermelhos, inchados de tristeza, de incerteza, de amargura. Gritei pela minha vida, que já não era minha, que já escorria pelas minhas mãos, já doía a culpa da minha recente intenção.
Minha morte seria talvez uma forma de limpar tanta mágoa, humilhação. Apagaria de dentro de mim, que não existiria mais. Eu não seria mais nada do que um corpo preso entre a lataria daquele carro velho, acabado, enferrujado.
Dei a volta no quarteirão e peguei a estrada para o sítio. Voltava correndo no dia azul, aberto para o abraço da minha irmã, para o meu quarto sozinho, vazio. O verde que beirava a estrada me levava para aquele dia no bar do centro, aquele dia que encontrei na boca daquele homem as palavras que esperei escutar e o olhar que esperei para me atirar.
Eu tinha acabado de fazer aniversário - 35 anos. Uma jovem, nem tanto, mulher solteira numa cidade pequena do interior. Uma mulher que já havia sido abandonada no altar, que já havia ouvido promessas para toda a vida e que agora bebia numa mesa de um bar, sozinha, comemorando a decepção de uma vida insatisfeita.
Tinha visto-o encostado no bar pedindo bebidas. Vagarosamente aproximava-se da minha mesa. 'Posso sentar com você?' 'Claro, por favor'. Retirei correndo minha pequena bolsa vermelha de cima da mesa derrubando meu copo de uísque. Desastre. 'Desculpa' 'Imagina, deixa eu te ajudar'. Enquanto nossas mãos secavam todo o meu desconserto eu suava e respirava forte, no ritmo da minha ansiedade.
Recusei suas mãos mas aceitei o presente de seus beijos. Um doce para equilibrar a acidez da idade 'avançada'. Fiquei sentada no chevette velho com perfume de rosas olhando para o vazio do estacionamento. Algumas imagens pareciam-me mais brilhantes, mais nítidas e, se me permitem a pieguice, mais coloridas.
'Entra aqui' gritei a ele. Gritei implorando ajuda. Meus olhos devem ter assustado o garoto. Olhos vermelhos, inchados de tristeza, de incerteza, de amargura. Gritei pela minha vida, que já não era minha, que já escorria pelas minhas mãos, já doía a culpa da minha recente intenção.
Minha morte seria talvez uma forma de limpar tanta mágoa, humilhação. Apagaria de dentro de mim, que não existiria mais. Eu não seria mais nada do que um corpo preso entre a lataria daquele carro velho, acabado, enferrujado.
Dei a volta no quarteirão e peguei a estrada para o sítio. Voltava correndo no dia azul, aberto para o abraço da minha irmã, para o meu quarto sozinho, vazio. O verde que beirava a estrada me levava para aquele dia no bar do centro, aquele dia que encontrei na boca daquele homem as palavras que esperei escutar e o olhar que esperei para me atirar.
Eu tinha acabado de fazer aniversário - 35 anos. Uma jovem, nem tanto, mulher solteira numa cidade pequena do interior. Uma mulher que já havia sido abandonada no altar, que já havia ouvido promessas para toda a vida e que agora bebia numa mesa de um bar, sozinha, comemorando a decepção de uma vida insatisfeita.
Tinha visto-o encostado no bar pedindo bebidas. Vagarosamente aproximava-se da minha mesa. 'Posso sentar com você?' 'Claro, por favor'. Retirei correndo minha pequena bolsa vermelha de cima da mesa derrubando meu copo de uísque. Desastre. 'Desculpa' 'Imagina, deixa eu te ajudar'. Enquanto nossas mãos secavam todo o meu desconserto eu suava e respirava forte, no ritmo da minha ansiedade.
Recusei suas mãos mas aceitei o presente de seus beijos. Um doce para equilibrar a acidez da idade 'avançada'. Fiquei sentada no chevette velho com perfume de rosas olhando para o vazio do estacionamento. Algumas imagens pareciam-me mais brilhantes, mais nítidas e, se me permitem a pieguice, mais coloridas.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Conversa de Elevador
O tempo tá demais. Um dia tá calor, no outro tá frio. Você acorda nublado, passa pelo efeito cebola, sofre de calor na hora do almoço e volta à noite para casa se perguntando se estamos realmente em outubro.
E aí a crise, você vê? As pessoas perdendo as casas. É, a mentira americana uma dia ia das com os burros n'água. Tem gente morando dentro do carro, você viu isso? Uma loucura. Não tá fácil para ninguém. O que é notícia de Datena's por aqui, virou uma realidade da dita classe média lá. Perdendo tudo...um pecado, viu?
Aqui o preço dos alimentos...tudo sobe e nada desce. Sair para comer em São Paulo? Como pode né? E as 'criança' em casa, a escola, a natação...tá tudo pela hora da morte. Uma loucura. As 'conta' 'pendurada' na porta da geladeira e eu digo 'olhe a situação da sua mãe do seu pai....vá apagar a luz! você pensa que eu sou sócio da eletropaulo?'
Você vê o trânsito dessa cidade? Um dia pára. Olha...São Paulo, ame-a ou deixe-a, como se diz, né? E a vida do ouro lado da ponte. Ah, tão difícil atravessá-la. Não tá fácil.
ps....minha falta de assunto e minha homenagem a estas conversas vazias e tão divertidas.
E aí a crise, você vê? As pessoas perdendo as casas. É, a mentira americana uma dia ia das com os burros n'água. Tem gente morando dentro do carro, você viu isso? Uma loucura. Não tá fácil para ninguém. O que é notícia de Datena's por aqui, virou uma realidade da dita classe média lá. Perdendo tudo...um pecado, viu?
Aqui o preço dos alimentos...tudo sobe e nada desce. Sair para comer em São Paulo? Como pode né? E as 'criança' em casa, a escola, a natação...tá tudo pela hora da morte. Uma loucura. As 'conta' 'pendurada' na porta da geladeira e eu digo 'olhe a situação da sua mãe do seu pai....vá apagar a luz! você pensa que eu sou sócio da eletropaulo?'
Você vê o trânsito dessa cidade? Um dia pára. Olha...São Paulo, ame-a ou deixe-a, como se diz, né? E a vida do ouro lado da ponte. Ah, tão difícil atravessá-la. Não tá fácil.
ps....minha falta de assunto e minha homenagem a estas conversas vazias e tão divertidas.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Sutiã - Deus o Abençoe
Há alguns - muitos - meses, eu resolvi que não iria mais usar esse estilingue ao redor do meu corpo, prendendo meus seios, levantando-os. Comprei tops e usava esse artigo do vestuário 'esportivo' todos os dias, com (quase) todas as minhas roupas e em todos os lugares.
Aí que eu cansei do efeito estético proporcionado por ele. Ontem, com meu real payment, comprei alguns presentes para mim mesma, e entre eles estava 'o sutiã'.
Agora, deslumbrada como se fosse o meu primeiro, fico imaginando porque nunca tinha usado esse modelo 'potente', turbinador, ultra delícia e confortável antes. E como, por deus, fiquei tantos meses com o colo achatado de uma pessoa breastless?
Eu gosto dos básicos. Detesto renda, que me dá uma alergia danada. Gosto de algodão, mas tudo bem se for outro tecido, desde que não 100% sintético. Os sintéticos não deixam a pele respirar, e mais alergia.
Não gosto de estampas, desenhos, mas se for listrado (as calcinhas, principalmente) pode ser. Aliás, adoro calcinhas de algodão com pouca lycra, listradinhas. É tão bonitinho, um pouco coloridinho.
Mas o sutiã é um artigo de poder. Como deixar de usá-lo? Não um poder sexual, somente. O que pode ser bem interessante também (as nazi-feministas que me perdoem). Mas não. O sutiã proporciona à mulher uma atitude mais confortável consigo mesma, auto-estima para dar segurança aos seus atos e decisões.
Mas aí que foi o conforto que me fez mudar dele para o top (mais leve, mais livre).
A minha conclusão é que não dá para usá-lo todos os dias, em todos os contextos. Mesmo porque todo esse sentimento de auto-estima/arraso/delícia acaba se desfazendo com a banalização do uso. Afinal, você pode estar com o turbinador mais potente do mercado, mas se não tiver um conteúdo 'bem-resolvido' e satisfeito, não há lycra que resolva seu problema.
Aí que eu cansei do efeito estético proporcionado por ele. Ontem, com meu real payment, comprei alguns presentes para mim mesma, e entre eles estava 'o sutiã'.
Agora, deslumbrada como se fosse o meu primeiro, fico imaginando porque nunca tinha usado esse modelo 'potente', turbinador, ultra delícia e confortável antes. E como, por deus, fiquei tantos meses com o colo achatado de uma pessoa breastless?
Eu gosto dos básicos. Detesto renda, que me dá uma alergia danada. Gosto de algodão, mas tudo bem se for outro tecido, desde que não 100% sintético. Os sintéticos não deixam a pele respirar, e mais alergia.
Não gosto de estampas, desenhos, mas se for listrado (as calcinhas, principalmente) pode ser. Aliás, adoro calcinhas de algodão com pouca lycra, listradinhas. É tão bonitinho, um pouco coloridinho.
Mas o sutiã é um artigo de poder. Como deixar de usá-lo? Não um poder sexual, somente. O que pode ser bem interessante também (as nazi-feministas que me perdoem). Mas não. O sutiã proporciona à mulher uma atitude mais confortável consigo mesma, auto-estima para dar segurança aos seus atos e decisões.
Mas aí que foi o conforto que me fez mudar dele para o top (mais leve, mais livre).
A minha conclusão é que não dá para usá-lo todos os dias, em todos os contextos. Mesmo porque todo esse sentimento de auto-estima/arraso/delícia acaba se desfazendo com a banalização do uso. Afinal, você pode estar com o turbinador mais potente do mercado, mas se não tiver um conteúdo 'bem-resolvido' e satisfeito, não há lycra que resolva seu problema.
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