quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Como estrelas na terra



Despretensiosamente, assisti ao filme que deu título ao post - Como estrelas na terra, do qual não encontrei nenhum trailer que fosse fiel e digno. Não é um lançamento, mas não tinha ouvido falar dele quando foi lançado em 2007 e nem quando participou do Festival de Filme do Rio em 2009.

Não sabia que era sobre educação, sobre lecionar, sobre saber que cada criança é diferente da outra, cada uma tem um ritmo e que os talentos devem ser incentivados para serem trabalhados, valorizados.

A produção é bem Bollywoodiana, cheia de cenas musicais, algumas tomadas bem cafonas e, até metade do filme, não se sabe se é algo como Quem quer ser um milionário? ou se vai enveredar pelo caminho dos Caçadores de Pipas. Daí o filme te surpreende, mesmo com tudo isso, e mostra uma trama sensacional, dessas emocionantes, das que fazem chorar com histórias sobre pessoas de verdade.

Eu já tive alguns alunos com dislexia. Duas delas, recentes, já tratadas, vacinadas e sem possibilidade de contágio por toque, mas uma outra, mais antiga - talvez uns 5 anos atrás - sofria algo bem próximo ao que Ishaan, o menino sorridente aí de cima sofre no filme. Dificuldade de ler e escrever por não reconhecer os desenhos das letras, os códigos, e relacioná-los com o alfabeto fonético.

Por alguns meses, tempo que nossos encontros duraram, eu me contorcia em pesquisas e exercícios elaborados pela minha cabeça para ajudá-la a não comer mais letras e palavras curtas. O bacana do filme não é só mostrar que isso não é problema de falta de inteligência, visto que o professor de artes (sempre eles, né? a sensibilidade ajuda a perceber que sintomas provêm de um problema. e é isso que deve ser questionado pelo professor, não?) cita inúmeros gênios que lutaram contra ela, mas você também aprende alguns exercícios práticos para lidar com a dislexia de diversas maneiras.



Além de ser um ótimo filme para inspirar quem está começando (e mesmo para quem já tem muita experiência, já que é sempre bom ver nossa profissão pelos olhos dos outros e perceber como ela pode ser inspiradora), é uma ótima oportunidade de refletir sobre a educação, no seu formato e como tudo já é tão ultrapassado, arcaico e focado num utilitarismo que nem é mais o do século vigente.

O sistema de ensino, modelo que foi pensado pós-revolução industrial e que refletia e construía profissionais que deveriam lidar com o mundo que estava vendo a luz do novo mundo não respondeu às tantas mudanças nos últimos séculos, inclusive em pesquisas que fazem crer que a estrutura hierárquica e a disposição de salas em uma escola, de alunos numa sala de aula está toda errada, distanciando cada vez mais o aluno do conhecimento. Com isso na cabeça, conheci essa semana o professor Khan.

Khan largou uma carreira corporativa de sucesso no Vale do Silício para dedicar suas economias à construção e alimentação de um site dedicado a ensinar com qualidade e alto nível tudo o que for possível. Eu ainda não olhei direito o www.khanacademy.org e assim que o fizer volto aqui para contar. Enquanto isso, veja você mesmo e aproveite e assista ao filme bonitinho que está disponível até no youtube.

4 comentários:

Marcia da Luz de Maria disse...

Realmente é um filme emocionante! No início parece ser um desses filmes despretensiosos, mas aos poucos a figura frágil do garoto conquista o coração do público, para mais adiante, mostrar o amor no coração de um Professor comandando a cena e transformando pessoas endurecidas pela tradição "burra", em pessoas sensíveis em busca da Verdade.

Paula Oliveira disse...

Mana, tô gostando de ver como vc está cada vez mais se enveredando para os lados da Educação... Ela precisa tanto de pessoas como você!

Eu já tinha visto pedaços deste filme há pouco mais de um ano ou mais... mas confesso que naquela época, a lentidão da minha conexão não me deixou com paciência para ver mais do que um pedaço, mas deu pra ver que apesar da linguagem diferente que o filme tem (como vc descreveu), é um filme que merece muito ser visto.

Infelizmente o problema é que a gente acaba, a cada vez que se vê filmes ou se ouve falar em alternativas possíveis para a Educação, ficando muito frustrado, porque dentro do sistema público de Educação, é muito difícil vislumbrar uma situação diferente desta que está posta há mais de século, e que apesar de poucas mudanças, na essência permanece exatamente igual. Isso me desanima.

Mas ao mesmo tempo, também dá pra perceber que estamos justamente num momento em que a situação está insustentável. Tenho certeza que alguma coisa PRECISA E VAI acontecer nesse campo, só não sei (sabemos) ainda se isso vai levar ao extremo caos (que me parece infelizmente bem próximo) ou se realmente vai conduzi-la a uma melhora, tão sonhada por quem realmente espera e acredita nela. Eu ainda espero e acredito, e penso que esse furacão pelo qual a Educação está passando é exatamente o momento crucial em que as coisas precisam ser mexidas mesmo, pra que todo mundo pense e reflita, e que cada um e todo mundo junto consiga trabalhar pra reorganizar a Educação de um jeito que realmente atenda a todos de verdade.

Beijo!

Paula Oliveira disse...

Poxa, eu queria ver o filme, mas sem legenda eu realmente não consigo (acho que foi por isso que eu fiquei só no "um pedaço do filme") :/

Ah, sobre o professor Khan, tem um site onde os vídeos estão em português, caso alguém se interesse, quem está fazendo as traduções é a fundação Lemann, está no site http://www.fundacaolemann.org.br/khanportugues/

;)

Mari Migliacci disse...

Paulinha, tenho certeza que você encontra para baixar. Meu irmão trouxe um dvd. Deve ter torrent facinho por aí.